quinta-feira, 18 de março de 2010

Será que o problema somos nós?

Philip Meyer, meu maestro soberano, toca numa questão importante sobre jornalismo e políticas públicas num artigo publicado nesta semana no USA Today: será que estamos fazendo direito nosso papel ao cobrir política?

E o eleitor, com a explosão de meios informativos do seu gosto estrito (como no Brasil os pró-Lula se informando com blogs polarizados pra um lado e os antilula se informando com blogs polarizados pra outro lado), não acaba sendo sugado para um gre-nal inútil?

Meu maestro soberano acompanha a política e o jornalismo político americano desde 1962. Ele parece pessimista. E o quadro que ele pinta me parece muito com o que temos no Brasil hoje.

Concordo em boa parte com o que ele diz, ainda que algumas ideias tenham me surpreendido. Como sempre, aliás.


Talvez nós sejamos o problema

Numa era em que há informação demais, um eleitorado seletivo simplesmente reforça ideologias rígidas. Ainda assim, culpamos nossas autoridades eleitas.



Por Philip Meyer


Um congresso disfuncional? Talvez não seja esse o problema. Considere a possibilidade de que o problema seja um eleitorado disfuncional que evita que qualquer coisa aconteça em Washington.

À medida que os jornais perdem anúncios para meios mais novos, todos nos preocupamos com como pagar pelo jornalismo que mantém os cidadãos informados e motivados.

Mas existem outros problemas para que esse jornalismo seja feito. Precisamos de um público que preste atenção e esteja disposto a agir sobre a informação que recebe. Sem ele, o engarrafamento parlamentar que vemos durante o ano inteiro não tem cura.

O que também importa é saber se a informação nos une ou nos divide. Se um liberal se encasula nos escritos de Paul Krugman, no sarcasmo de Keith Olbermann e nos resmungos do Huffington Post, ele ficou mais esclarecido ou simplesmente mais convicto?

Se um conservador passa uma hora com Sean Hannity, absorve a prosa de Charles Krauthammer e acampa no The Weekly Standard, ele tem de fato uma compreensão melhor do plano de saúde proposto por Obama, por exemplo?

Os repórteres de Washington têm parte da culpa. Eles fazem um bom trabalho cobrindo todos os vãos e desvãos das brigas entre a maioria democrata e a minoria republicana. Mas não são tão bons em mostrar o contexto maior e motivar-nos a agir.

Paul Lazarsfeld, o grande sociólogo que morreu em 1976, foi co-autor de um artigo que dava nome a esse problema, há mais de meio século. Informação demais, diz ele, pode levar à "disfunção narcotizante". Em outras palavras, um público eleitor cercado por uma plétora de detalhes e pelo jogo de bastidores vai simplesmente se sentir inútil e apático. Podemos saber muito, e isto nos faz bem, mas deixamos o conhecimento substituir a ação.

O ambiente de mídia que preocupava Lazarsfeld era muito diferente do de hoje. Menos de 1% das casas tinham televisão. Ainda assim, somando o rádio e os meios impressos, havia uma enchente de informação. O cidadão médio, disse Lazarsfeld em 1948, considerava 'suas leituras, audições e pensamentos como a uma performance de vigário. Ele passa a confundir saber a respeito dos problemas do dia com fazer algo a respeito.'

'Sua consciência social permanece imaculadamente limpa. Ele se preocupa. Ele está informado. E ele tem todo tipo de ideia sobre o que devia ser feito.'

'Mas... depois de ter ouvido seus programas favoritos no rádio e lido seu segundo jornal do dia, já passou da hora de ir para a cama.'

Hoje, com muitos outros canais de informação, incluindo TV a cabo, Twitter, Facebook e uma multidão de blogs, estamos cada vez mais soterrados por informações potencialmente narcotizantes. Mas nós não estamos mais inteligentes do que antes. O nível de conhecimento político nos EUA tem se mantido bastante estável ao longo do tempo.

Entretanto, desde o tempo de Lazarsfeld, e especialmente desde cerca de 1990, quando Tim Berners-Lee decidiu chamar a coisa que inventou de World Wide Web, temos consumido um tipo diferente de conteúdo de mídia. Ele é mais especializado. Presta-se menos atenção a áreas de interesse comum, onde pessoas com diferentes pontos de vista podem tentar compreender umas às outras. Essa falta de um ponto comum informativo torna o governo representativo bem mais difícil. Quando não há interesse em saber e compreender as ideias dos outros, não pode haver deliberação. Recaímos num método de votação simples, de aprovar ou reprovar. Quando as coisas saem mal, simplesmente expulsamos os pulhas.

Os Democratas venceram em 2008 porque a economia estava azedando. Os Republicanos notaram, e então sua mais alta prioridade é que o presidente Obama falhe para que os Democratas sejam os pulhas de 2012. Eles são bastante abertos a esse respeito. Onde chegaremos assim?

Caso funcione, o que pode impedir que uma minoria Democrata em 2013 mine o governo da presidente Sarah Palin com mais engarrafamento? Se levar um governo a falhar é o caminho da vitória, estamos naquilo que os engenheiros de software chamam de 'loop': damos voltas e mais voltas e não conseguimos sair disso.

Não culpe o Congresso. Se um eleitorado narcotizado não se envolve, o inimigo somos nós.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O dia em que eu colaborei com o Glauco

(EDITADO EM 14.MAR.2010, CORRIGINDO CIRCUNSTÂNCIAS DA MORTE)

Morreu nesta noite, num ataque imbecil (afinal, não o são todos?) de um chapado que pensava ser Jesus, o chargista Glauco. Ele foi um daqueles chargistas que, depois da posse do Lula, não entraram na esparrela de que humor pode ser a favor dependendo do personagem. Ele cutucava todos os governos do mesmo jeito, com elegância, sem fazer "humor a favor" e nem resvalar para o escatológico ou a piada fácil ("presidente cachaceiro" etc).

Tive a honra de colaborar com ele indiretamente, certa vez, quando trabalhei na Folha. 

O repórter Ronald Freitas certo dia obteve o contrato social da construtora Lavicen, empresa fantasma subcontratada para construir a obra superfaturada do túnel Ayrton Senna, na gestão Maluf da prefeitura de São Paulo. Com sede no interior do Paraná, ela teria sido usada para lavar dinheiro. E um dos seus sócios se chamava Lavino Kiil - algo bom demais pra ser verdade, num caso de lavagem de dinheiro.

Fuçando na internet, nas listas telefônicas do Paraná, descobri para o Ronald o telefone do Lavino Kiil. Ligamos. Atendeu um velhinho, com a voz trêmula. Era um sapateiro aposentado. Este foi o diálogo:






Folha - Quem fala?




Lavino Kiil - É o Lavino.




Folha - Sr. Lavino, é Ronald Freitas, da Folha de S.Paulo. Tudo bem?




Kiil - Quem?




Folha - Ronald Freitas, da Folha de S.Paulo. Eu estou ligando para o sr. porque o sr. consta como dono da empresa Lavicen Construções e Locações de Máquinas de Terraplenagem Ltda. O sr. é dono ou já foi dono dessa empresa...




Kiil - Não.




Folha - ...com sede em Abatiá?




Kiil - Não. Sabe o que é: me aposentei como sapateiro e tenho sapataria ainda.




Folha - Deve estar havendo alguma confusão. Deixe eu lhe explicar melhor. Essa empresa, Lavicen, na época da construção do túnel Ayrton Senna, em São Paulo, alugou máquinas de terraplenagem, caminhões e tratores para a obra. Existe a suspeita no Ministério Público de que essa empresa lavaria dinheiro, seria apenas uma empresa de fachada. O sr. conhece alguém, algum dia assinou algum documento relativo a essa empresa, alguém lhe convidou para montar essa empresa?




Kiil - Não, não, não.




Folha - O sr. pode ter sido usado como laranja?




Kiil - Não.




Folha - É uma coisa muito comum.




Kiil - Não. Você está telefonando de São Paulo?




Folha - Sim.




Kiil - Ah, que legal! Minha terra!




Folha - Sua terra? 




Kiil - Eu nasci em Brotas (245 km a noroeste de São Paulo).




Folha - E está no Paraná há quanto tempo?




Kiil - Ah, já faz... muitos anos.




Folha - O sr. já morou em Abatiá




Kiil - Abatiá, não.




Folha - O senhor conhece Joel Gonçalves Pereira?




Kiil - Joel Gonçalves Pereira...[repete, como quem força a memória]




Folha - Que mora em Curitiba...




Kiil - Mas ele é o quê? É pastor, é crente, o que é que é?




Folha - Ele é representante comercial. Pelos documentos da Lavicen, seria seu sócio na empresa.




Kiil - [Risos] Brincadeira.




Folha - Eu estou ligando para o sr. porque é sério.




Kiil - Se eu tivesse alguma coisa a ver com isso, eu não estava tão sorridente desse jeito.




Folha - Quantos anos o sr. tem, seu Lavino?




Kiil - 68.




Folha - O sr. sempre trabalhou como sapateiro? Nunca teve nenhuma outra atividade?




Kiil - Não, tive. Tive restaurante, tive bar, eu mexi com a vida, sabe? Tive salão de beleza. Olha, eu fui lutador para criar meus seis filhos.
Folha - Empresa de aluguel de equipamento o sr. nunca teve?




Kiil - Não, não. Isso aí, não. Eu vou dizer uma coisa para você. Você deve procurar, não estou denunciando, mas onde eu tenho muito parente Kiil é em Limeira. Lá tem uns ricos, ricos. Tem vila inteira deles lá.




Folha - Mas os Kühl de Limeira se escreve K-u-h-l.




Kiil - É, o deles é diferente.




Folha - O seu escreve como?




Kiil - K, dois "is" e um "ele".




Folha - O sr. mora no Paraná há quanto tempo?




Kiil - Espere aí. [Kill pergunta à mulher, Ana, há quanto tempo vivem no Paraná]. Acho que há uns 40 anos.




Folha - Pelo registro na Junta Comercial, a Lavicen foi aberta em 1987. O acordo com a Constran seria de 1993. O senhor não tem nada a ver com isso?




Kiil - Não.




Folha - O Joel Gonçalves Pereira o sr. não conhece?




Kiil - Não.




Folha - Nunca teve nenhum amigo, ninguém da sua relação que tivesse esse nome?




Kiil - Não.




Folha - Nunca morou em Abatiá?




Kiil - Não. Abatiá, não.




Folha - Mas conhece Abatiá?




Kiil - Não, só conheço um bom jogador de futebol, que era o Sebastião Batiá.
A reportagem, "Sapateiro 'construiu' túnel na gestão Maluf", fez sucesso. Mas a melhor medida desse sucesso foi o trabalho dos chargistas em cima dessa piada pronta. Como esta charge do Glauco, publicada no dia seguinte e que não altera em quase nada o que o seu Lavino disse: