sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O forró dos estudos do IPEA

Você conhece o churnalismo chique-chique, que botou uma butique na internet para a vida melhorar? Pois é. O IPEA tá de olho na butique dele, com estudos que mais parecem letras de forró do Genival Lacerda.

Se você mora no Nordeste ou assistia televisão nos anos 80, você conhece a obra: o refrão parece dizer uma coisa, mas depois vem a letra e mostra que não bem assim. Tipo a letra de "Ela Deu o Rádio", cujo refrão podia soar picante ("Ela deu o rádio, ela deu sim/Ela deu o rádio, e não foi pra mim"), mas na verdade se tratava de um radinho de pilha mesmo.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) foi a primeira fonte de estudos pautáveis que eu consultei regularmente, no final dos anos 90. Lembro de um estudo glorioso sobre o custo dos engarrafamentos de trânsito, por exemplo. O banco de dados Ipeadata reúne números inestimáveis.

Só que pelo menos desde janeiro o IPEA tem publicado estudos otimistas demais, quase feitos sob encomenda para entrarem em discursos políticos. Eu pessoalmente não tenho nada contra o Brasil melhorar, até quero muito. O problema é que esses estudos, assim como os forrós do Genival Lacerda, SEMPRE têm uma vírgula depois da qual é possível ver que a coisa não é bem assim.

O primeiro, que dissequei na primeira versão do "E Você Com Isso?", foi um que dizia ser o gasto com saúde no Brasil "mais eficiente" que em países ricos. A Agência Brasil deu praticamente o release na íntegra. Na lógica do churnalismo, a notícia se alastrou por todos os portais de notícias. Mas não era bem assim - o eficiente da notícia era como o rádio do forró. Significava basicamente que a situação é tão ruim que qualquer dinheirinho a mais que entrar já dá uma boa melhorada. O estudo, aliás, era bem sinuoso nas afirmações. De acordo com ele, os resultados "não são totalmente desfavoráveis" ao Brasil. Não se entrou no mérito sequer de como o dinheiro é administrado.

O segundo tratava da quantidade de funcionários públicos - de acordo com o estudo, o Brasil tem menos funcionários públicos que os EUA. Foi noticiado pela Agência Brasil e repetido pelo O Globo. O problema é que eu li o estudo inteiro (baixe aqui) e ele não faz comparação nenhuma a respeito da eficiência desses servidores. Teoricamente, mais funcionários significam mais eficiência no serviço público. Mas só teoricamente: o Senado, não custa lembrar, tinha 10 mil funcionários. E presta serviços à altura do staffing? Não adianta ter um monte de gente e continuar funcionando mal. Encher de gente por encher de gente é agir como aquele prefeito do interior de piada, que em seu primeiro dia de governo foi à praça pública queimar uma pilha de pneus. "Na minha campanha, eu prometi transformar São Pafúncio do Passa Longe em uma cidade grande, e toda metrópole tem poluição", justificou-se.

O terceiro abordava a questão dos impostos. Segundo o estudo, o país paga mais de um terço de seu Produto Interno Bruto (PIB) em impostos (confira aqui o release original). Em relação ao PIB per capita, fica mais ou menos a mesma proporção que se paga no Reino Unido. Será que os serviços públicos que recebemos em troca desse um terço do PIB são proporcionais aos que os ingleses recebem? Tenho cá minhas dúvidas. Mais uma vez, o estudo não entrou no mérito de como são usados esses impostos.

Mais recentemente, veio o quarto estudo. O título da Agência Brasil é chamativo: "Produtividade no setor público é maior do que no setor privado". Eu não tive tempo ainda para ler com calma o estudo, mas eu não reproduziria essa notícia assim no mais. Esses estudos SEMPRE têm uma vírgula que derruba o refrão do Genival Lacerda.

O principal motivo pelo qual precisamos estar atentos aos números, em vez de sermos seduzidos facilmente por eles, é o fato de que quem quer passar uma mensagem distorcida conta exatamente com nossa ignorância. Senão, a gente dança o forró do rádio.

Não se contente com o release. Olhe o estudo inteiro, veja se faz sentido. Olhe as planilhas. Compare os números. Faça contas básicas. Procure o autor pra perguntar sobre suas dúvidas, talvez. Mas não se deixe enganar tão facilmente.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Dando voz à imaginação

Tenho ouvido vários podcasts nos últimos dois anos e pouco.

O principal motivo pelo qual eles me fascinam é simples: foi por meio deles que me caiu a ficha de como REALMENTE aquela distinção que se fazia quando entrei na faculdade, entre profissionais "de impresso", "de rádio" e "de TV", não faz mais muito sentido na internet. Claro que há aptidões e aptidões - mas áudio, vídeo, texto e muito mais convivem bem entre si na rede.

Os primeiros podcasts que eu descobri foram os do New York Times e do Guardian, meus jornais favoritos no mundo.

O jeito mais fácil de fazer um podcast de jornal é botar o autor de uma coluna para lê-la. Ou um jornalista de boa voz para ler as manchetes do dia. Mas eu acho isso algo bem fraco - em parte porque leio mais rápido do que ouço, em parte porque texto escrito não tem a naturalidade do texto falado.

Os podcasts podem servir para agregar à informação já publicada. É uma camada a mais de informação para quem gosta.

No Times, gosto muito do "World View", uma conversa com os correspondentes do jornal, e o "NYT Tech Talk", sobre tecnologia. No Guardian, gosto de alguns especiais.

Se quiser me ver pirar, porém, é com os podcasts da BBC. Mas eu sei que é covardia, porque a emissora britânica tem mais de sete décadas de experiência como a melhor rádio do mundo. De qualquer forma, é sempre uma bênção poder abdicar dos palpiteiros do rádio local para ouvir programas como "More or Less" (sobre números) e "Thinking Allowed" (conversas com sociólogos e outros pesquisadores de ciências humanas sobre temas sempre interessantes), além de entrevistas e documentários de primeira linha.

No Brasil, ouço muito poucos podcasts. A Folha faz alguns, inclusive sobre horóscopo pra quem gosta (não é minha praia). Ouço o da Eliane Cantanhêde. A rádio CBN permite baixar alguns programas e colunas. Mas ainda não pegou.

O legal dos podcasts é que as ferramentas estão à mão de todos.

Meu Mano Velho Eduardo Sales Filho edita o Papo de Gordo toda semana, batendo papo com amigos de peso. Ele usa o Skype pra juntar o pessoal e o Audacity para editar. O amigo Vitor Benvindo, lá no Rio de Janeiro, faz um programa sobre rock antigo chamado Mofodeu, que pode ser baixado como podcast.

Já o meu mestre Cazé Peçanha, da MTV, criou um site para qualquer um fazer minipodcasts até pelo telefone, o Gengibre. Eu tenho um perfil lá onde posto algumas provocações que todos podem responder em texto ou áudio. Anteriormente, também usando o Audacity, fiz alguns podcasts sobre o Deep Purple (sim, eles são minhas cobaias mesmo).

As possibilidades são várias. Você pode fazer podcasts com trechos das entrevistas que faz, pra botar no online de onde você trabalha, por exemplo.

Se você pretende experimentar com podcasts, porém, procure pensar muito bem na edição antes de fazer. Isso inclui pensar bem o texto, ou selecionar muito bem os trechos de fala, além de incluir música e outros sons se possível.

A maior parte dos podcasts amadores bate uma hora de duração. Isso me frustra, porque eu dificilmente tenho uma hora para ouvir um áudio sobre um assunto só. Por isso não tenho paciência de ouvir rádio. Isso pra não falar do "peso" em megabytes dos arquivos.

A maior parte dos podcasts da BBC tem menos de meia hora. Não há assunto que eles não consigam aprofundar nesse tempo. Acho que essa é uma ótima duração. Como eu costumo ouvir podcasts no ônibus ou na rua, dá pra ouvir metade na ida e metade na volta quando saio de casa.

Hoje, há quinhentas coisas brigando pela atenção de cada um: todas as possibilidades da internet, trocentos canais de TV, radio, videogame, jornais, revistas, livros, música a rodo, vídeo de todo jeito... Se você não fisgar a atenção do leitor/ouvinte/espectador, é bastante fácil ele arrumar outra coisa para fazer.

O iTunes, da Apple, é um programa que facilita encontrar e baixar podcasts. Ele tem uma experiência ótima na idéia, mas péssima na execução: a iTunes University. Várias universidades de alto nível (e outras nem tanto) gravam aulas e palestras e permitem que qualquer um baixe.

Genial, né?

Nem tanto.

Já baixei semestres inteiros de aulas sobre assuntos tão fabulosos quanto a história da informação, desde o surgimento da escrita até hoje. (Bom, pra mim é fabuloso.) Mas, além de a gravação estar distante, muito baixa, cheia de ruído, a primeira aula era inteira dedicada a explicar como funcionavam as presenças e a avaliação. No começo de cada aula, o professor conversava sobre aspectos administrativos - com som ruim e tudo. Desisti.

Hoje, botei para ouvir uma palestra da universidade de Cornell sobre a história do vinho nos Estados Unidos. Assunto fascinante - mas eles mantiveram todo o blablablá da oradora, todas as palmas, toda a descrição do currículo do palestrante... e quando o ônibus chegou na minha parada o sujeito tinha acabado de limpar a garganta e agradecer pela presença de todos.

Se você quer fazer um podcast, pense no tempo do seu ouvinte. Ele vale ouro.

E vocês? Ouvem podcasts? Fazem? De que gostam e de que não gostam?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Mordendo o cachorro


Muita gente tem dificuldade pra encontrar pautas, sem dúvida. Já vi muitos jornalistas, especialmente jovens e de meios de comunicação pequenos, reclamando que as assessorias não lhes mandam release e prejudicam suas pautas. Tenho vontade de sacudir esse povo quando vejo essa choradeira. Isso é o vício do churnalismo.

Acho que a principal capacidade que um jornalista deve procurar desenvolver é a habilidade de enxergar pautas. Isso depende um tanto de prática, outro tanto de atenção, outro tanto de malandragem e imaginação.

Há jornalistas que partem para outros lados - se não tem notícia, eles inventam fatos. Isso tem graus variados - invenção completa, à la Jayson Blair; supervalorização de fatos insignificantes; e o provocamento de situações noticiáveis.

É famosa a frase do personagem de Kirk Douglas em "A Montanha dos Sete Abutres": "Sei lidar com notícias grandes e pequenas. E, se não tiver notícia, eu saio e mordo um cachorro."

Essa lógica, levada às últimas conseqüências, é a acusação feita ao deputado e apresentador de programa policial amazonense Wallace Souza. Ainda não repercutiu muito no Brasil, mas já está na Associated Press:

    A polícia brasileira afirma que o apresentador de um programa de TV sobre crimes está sendo investigado por possivelmente ordenar assassinatos para aumentar a popularidade de seu programa.

    O apresentador do programa, na região sem lei da Amazônia, também é um deputado estadual e ex-policial. Os procuradores dizem que ele também enfrenta acusações de tráfico de drogas e formação de quadrilha.

    O chefe da inteligência da polícia do Estado do Amazonas, Thomaz Vasconcelos, disse nesta terça que os investigadores acreditam que Wallace Souza "mandava cometer crimes para criar notícias para seu programa". Ele disse que Souza está sendo investigado por envolvimento em quatro crimes.

    O advogado de Souza, Francisco Balieiro, disse que Souza é inocente e que as acusações são uma tentativa de seus inimigos políticos de difamá-lo.

Crianças: por mais que falte pauta, não façam isso em casa.