Se você mora no Nordeste ou assistia televisão nos anos 80, você conhece a obra: o refrão parece dizer uma coisa, mas depois vem a letra e mostra que não bem assim. Tipo a letra de "Ela Deu o Rádio", cujo refrão podia soar picante ("Ela deu o rádio, ela deu sim/Ela deu o rádio, e não foi pra mim"), mas na verdade se tratava de um radinho de pilha mesmo.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) foi a primeira fonte de estudos pautáveis que eu consultei regularmente, no final dos anos 90. Lembro de um estudo glorioso sobre o custo dos engarrafamentos de trânsito, por exemplo. O banco de dados Ipeadata reúne números inestimáveis.
Só que pelo menos desde janeiro o IPEA tem publicado estudos otimistas demais, quase feitos sob encomenda para entrarem em discursos políticos. Eu pessoalmente não tenho nada contra o Brasil melhorar, até quero muito. O problema é que esses estudos, assim como os forrós do Genival Lacerda, SEMPRE têm uma vírgula depois da qual é possível ver que a coisa não é bem assim.
O primeiro, que dissequei na primeira versão do "E Você Com Isso?", foi um que dizia ser o gasto com saúde no Brasil "mais eficiente" que em países ricos. A Agência Brasil deu praticamente o release na íntegra. Na lógica do churnalismo, a notícia se alastrou por todos os portais de notícias. Mas não era bem assim - o eficiente da notícia era como o rádio do forró. Significava basicamente que a situação é tão ruim que qualquer dinheirinho a mais que entrar já dá uma boa melhorada. O estudo, aliás, era bem sinuoso nas afirmações. De acordo com ele, os resultados "não são totalmente desfavoráveis" ao Brasil. Não se entrou no mérito sequer de como o dinheiro é administrado.
O segundo tratava da quantidade de funcionários públicos - de acordo com o estudo, o Brasil tem menos funcionários públicos que os EUA. Foi noticiado pela Agência Brasil e repetido pelo O Globo. O problema é que eu li o estudo inteiro (baixe aqui) e ele não faz comparação nenhuma a respeito da eficiência desses servidores. Teoricamente, mais funcionários significam mais eficiência no serviço público. Mas só teoricamente: o Senado, não custa lembrar, tinha 10 mil funcionários. E presta serviços à altura do staffing? Não adianta ter um monte de gente e continuar funcionando mal. Encher de gente por encher de gente é agir como aquele prefeito do interior de piada, que em seu primeiro dia de governo foi à praça pública queimar uma pilha de pneus. "Na minha campanha, eu prometi transformar São Pafúncio do Passa Longe em uma cidade grande, e toda metrópole tem poluição", justificou-se.
O terceiro abordava a questão dos impostos. Segundo o estudo, o país paga mais de um terço de seu Produto Interno Bruto (PIB) em impostos (confira aqui o release original). Em relação ao PIB per capita, fica mais ou menos a mesma proporção que se paga no Reino Unido. Será que os serviços públicos que recebemos em troca desse um terço do PIB são proporcionais aos que os ingleses recebem? Tenho cá minhas dúvidas. Mais uma vez, o estudo não entrou no mérito de como são usados esses impostos.
Mais recentemente, veio o quarto estudo. O título da Agência Brasil é chamativo: "Produtividade no setor público é maior do que no setor privado". Eu não tive tempo ainda para ler com calma o estudo, mas eu não reproduziria essa notícia assim no mais. Esses estudos SEMPRE têm uma vírgula que derruba o refrão do Genival Lacerda.
O principal motivo pelo qual precisamos estar atentos aos números, em vez de sermos seduzidos facilmente por eles, é o fato de que quem quer passar uma mensagem distorcida conta exatamente com nossa ignorância. Senão, a gente dança o forró do rádio.
Não se contente com o release. Olhe o estudo inteiro, veja se faz sentido. Olhe as planilhas. Compare os números. Faça contas básicas. Procure o autor pra perguntar sobre suas dúvidas, talvez. Mas não se deixe enganar tão facilmente.

"How to Lie with Statistics"
"Precision Journalism"
"A Mathematician Reads the Newspaper"
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"A Lógica do Cisne Negro"
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