domingo, 5 de julho de 2009

Churnalismo e preconceito jogam oito anos fora

Em 2001, uma guria de 18 anos foi encontrada morta num cemitério em Ouro Preto. Estava de braços abertos e havia sofrido 17 facadas. Segundo a acusação, ela teria sido morta por colegas que jogavam RPG (Role-Playing Game) com ela. O julgamento foi ontem, e os acusados foram absolvidos por falta de provas.

Desde o começo, o caso virou um circo. A acusação focava principalmente no caráter "maligno" do jogo como prova de que os acusados haviam matado. Criou-se na época, há oito anos, até uma campanha pra tornar ilegal o RPG, na lógica imbecil e mui brasileira do "na dúvida, proíba-se". Os jornalistas embarcaram no bonde, em títulos como este:

Acusado de crime em Ouro Preto admite conhecer RPG

Esse bonde é tosco pelo seguinte: o RPG é tão culpado por um assassinato ocorrido durante uma partida quanto o truco é culpado pelo infortúnio deste cavalheiro tornado famoso pelo YouTube:



Quem mata não é o jogo. Quem mata é o assassino. Foi a primeira vez em que eu vejo a acusação, e não a defesa, culpar entidades sobrenaturais por um assassinato cometido por seres humanos.

Resumo da ópera: a investigação foi malfeita, focando no "jogo do demônio". O churnalismo teve sua participação, publicando acriticamente tudo o que os investigadores diziam, especialmente com o sensacionalismo do foco sobre o jogo. Os investigadores tiveram seus 15 minutos de fama como paladinos da moral e bons costumes contra o jogo do demônio.

Quando chegou a hora de julgar, havia acusados mas não havia provas concretas. O foco era sobre se os acusados conheciam ou não o jogo.

Criou-se uma polarização. Os fãs do RPG estão comemorando a decisão - o jogo foi absolvido, enfim. A culpa pelo escândalo eles vêm pondo na mídia sensacionalista que satanizou o jogo. E em boa parte é, mesmo. Não acompanhei a cobertura do caso, mas vi muito pouco questionamento fundamentado desse foco.

Só que tem o seguinte. A moça continua morta. Com 17 facadas, suicídio é que não foi. Perdeu-se oito anos nessa polarização imbecil sobre se foi ou não o jogo do demônio o culpado pela morte. A investigação terá que ser refeita. Oito anos depois, difícil que as evidências estejam íntegras o suficiente.

A tendência é que tenhamos mais um crime insolúvel no Brasil. O que é mais um ou menos um, não é mesmo?

Caso os jornalistas tivessem feito um pouco seu trabalho e questionado o foco desde o começo, dando menos holofote à imbecilidade, talvez o caso não ficasse tão popular, mas haveria um pouco mais de chance de o assassinato ser resolvido.