quarta-feira, 17 de junho de 2009

Caiu a obrigatoriedade do diploma. E agora?

O Supremo Tribunal Federal decidiu que o diploma de jornalismo não é mais obrigatório. E eu acho isso genial. Abri aqui em casa um Pinotage sul-africano para comemorar.

Mas eu sou minoria. No Twitter, está uma choradeira braba - o famoso #mimimi. O pessoal reclama coisas como "de que adiantou estudar?". Já vi gente dizendo coisas como "paguei na faculdade o equivalente a um carro zero, quem me devolve agora?" A mais engraçada é "e agora, que qualquer analfabeto pode tirar meu emprego?"

Discordo veementemente. A queda da obrigatoriedade não proíbe o funcionamento das faculdades e nem torna ilegais os diplomas já expedidos e a expedir. O diploma não "foi derrubado" nem "está extinto", como dizem alguns comentários.

Estudar jornalismo pode ser bastante útil para se tornar um jornalista, se o curso for bom. Algumas empresas continuarão contratando apenas formados, e é razoável. A desobrigação só tornará inúteis os quatro anos de estudo de jornalismo em dois casos:

    1) Quando sua faculdade é muito ruim e nada que você aprenda nela vai acrescentar absolutamente coisa alguma ao que você já traz de casa ou pode aprender na prática. Nesse caso, é uma boa oportunidade pra mudar pra uma melhor ou mudar de curso. Ou largar de vez e procurar um trampo (emprego é raridade hoje em dia) em jornalismo.

    2) Quando você quer comprar um canudo em prestações, e não refinar sua formação. Nesse caso, lamento, mas nem se o diploma continuasse obrigatório você conseguiria um lugar ao sol no mercado. Largue a faculdade e aproveite o tempo extra para estudar para algum concurso público. Estabilidade garantida, fim de semana, feriados, férias, licenças, aposentadoria, etc. Para você, será muito melhor do que o cenário complexo de incertezas que o jornalismo enfrenta hoje, e poupará seus pais de decepções futuras.

De qualquer forma, acho que vai ser uma bela oportunidade para as faculdades mostrarem na prática para que servem. Um bom começo seria melhorar MUITO o que ensinam, refinar MUITO o pensamento que se produz sobre jornalismo lá dentro.

Mais sobre esse ponto específico neste post de há alguns dias.

    EDITADO: Faltou mencionar um dos argumentos ruins do mimimi. Como disse o meu veterano da UFRGS Tiago Jucá, se você tem medo de concorrer com analfabetos, melhor plantar batatas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Alguns pontos de cabeça fria sobre o blog da Petrobras

Ontem, estive no programa Roda Viva, da TV Cultura, na bancada do Twitter. O entrevistado era o Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras. E o assunto do dia era quentíssimo: no começo do mês, sob a sombra da CPI recém-aberta e muito disputada (sobre a qual falei outro dia no Notícias MTV), a empresa abriu um blog para publicar a íntegra das perguntas feitas pela imprensa e respostas dadas pela empresa para essas reportagens.

O que pode ser polêmico em fazer um blog para isso? A princípio, as respostas refletem a posição oficial da empresa, e se o blog é da Petrobras não tem nada de errado. Mas o problema é que as perguntas dos jornalistas eram publicadas no blog da Petrobras antes da publicação das matérias.

(Pra rebater, jornalistas criaram um blog para escancarar perguntas não respondidas pela Petrobras.)

A discussão não é nada simples, embora as claques resumam tudo a palavras de ordem. Escrevi bastante sobre o caso do blog da Petrobras no Twitter, especialmente durante o Roda Viva, mas vou resumir aqui minha opinião sobre alguns pontos do assunto.


1) A sombra da CPI

Parece óbvio que o blog foi criado para rebater, antes da publicação, reportagens críticas que certamente devem se avolumar na imprensa, com a pilha enorme de vazamentos que sempre rola numa CPI. Quando eu trabalhava na Transparência Brasil, no banco de dados Deu no Jornal, era o auge das CPIs do mensalão. Todo dia a equipe recolhia em média 150 notícias sobre o caso. Em certos dias, chegou a mais de 300 - sobre um só assunto.

Pessoalmente, acho que há várias questões malcontadas e pouco transparentes na gestão da Petrobras. Mas, também pessoalmente, não sei se uma CPI é um instrumento eficiente para resolvê-las. Uma CPI sempre acaba sendo uma espécie de circo, uma busca desenfreada por holofotes, mais do que de solução para problemas.

O melhor exemplo disso é a CPI dos Sanguessugas grande sucesso do Congresso em 2006. (O caso dos sanguessugas era aquele em que deputados apresentavam emendas ao orçamento liberando verba para comprar ambulâncias em municípios; uma empresa, a Planam, seria responsável por propinar deputados e prefeitos para garantir que ela levasse essa grana.) O relatório da CPI descrevia os caminhos e descaminhos do golpe, mas não chegava a fazer recomendações eficientes para trancar os ralos. Tanto que esquemas arrepiadoramente semelhantes aconteceram antes (como o caso da Operação Pororoca) e depois (como o caso da Operação Navalha).

Por todo o barulho que gerou, a CPI dos Sanguessugas não gerou solução para fechar esses ralos, porque todo o debate sobre ela acabou caindo mais na armadilha da fulanização (quem é sanguessuga, quem não é) e menos na análise do esqueleto do golpe, que poderia gerar recomendações que evitassem futuros vermes com esquemas semelhantes. Desenvolvi um pouco melhor esse raciocínio num artigo para a Abraji, em 2007.


2) As ferramentas digitais e a política

Sou um entusiasta da tecnologia. No dia em que eu sair por aí dizendo que alguém não tem o direito de ter um blog, por favor, me internem. Um blog é uma ferramenta a serviço de quem o usa. A questão é como o sujeito o usa. E, nesse caso específico, o blog é uma arma de guerrilha.

A estratégia da Petrobras em abrir o blog e publicar as perguntas antes das reportagens é tentar esvaziar o noticiário crítico, primeiro ao abrir as pautas da imprensa para os concorrentes antes da publicação (falo sobre isso no próximo item) e depois ao arregimentar uma legião de comentadores da Web (essa raça que se reproduz como os gremlins) com discurso pronto e ensaiado pra "sair batendo" a qualquer sombra de crítica à empresa.

Pelo que eu vi ontem no Roda Viva, eles estão sendo muito hábeis nisso. Sábado, o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, inaugurou seu twitter. Hoje pela manhã, ele escreveu que "é incrivel como o blog do Noblat só traz comentários negativos sobre a Petrobras". Hoje à tarde já tinha gente no Twitter ecoando o discurso e dizendo que o blog do Noblat tinha ciúme do blog da Petrobras.

Assim funcionam as campanhas na internet: ecos, repetições, controlcê e controlvê. Ler dá trabalho, ninguém quer. Escrever, todo mundo sabe (ainda que mal). Dar controlvê é ainda mais fácil. Aí, na lógica do gre-nal e da briga de bugio, é ponto pra quem grita mais alto. Isso é do jogo: se a Petrobras entendeu esse vezo da internet e passou a usá-lo como arma política, pode ser chato aturar a gritaria, mas ela está apenas aproveitando uma característica já existente.

O problema todo, me parece, é a questão de vazar as perguntas antes da publicação. É esse o próximo ponto.


3) O "sigilo da pergunta"

As claques da internet vêm ironizando os jornais por reclamar de a Petrobras publicar as perguntas e respostas antes de as matérias saírem. Perguntam se existe sigilo de pergunta e dizem que a imprensa tem medo de perder o "monopólio da informação". As críticas todas começaram depois que meus amigos Rubens Valente e Ana Flor fizeram uma matéria sobre os gastos da Petrobras com advogados, publicada na Folha deste domingo, e o blog publicou as perguntas ainda na sexta. A Folha reclamou.

É lógico que pergunta não tem sigilo e que monopólio da informação é algo que não existe em tempos de internet. E, como jornalista e instrutor de jornalismo, acho que é sempre muito interessante ler uma matéria e ter ao lado a íntegra da entrevista que gerou algumas das informações dela. Se a Petrobras publicasse a íntegra das respostas junto com um link da matéria, para o leitor comparar, eu não veria problema algum. Pelo contrário, veria um grande serviço sendo prestado ao jornalismo e aos leitores em geral.

A grande questão aí é a seguinte: qualquer reportagem crítica que preze sua seriedade tem que ter o que chamamos de "outro lado". Se o jornalista vai publicar denúncias sobre as práticas de uma empresa, por exemplo, por mais que ele tenha documentos comprovando a prática é preciso apresentar as alegações para que a empresa possa se defender, respondendo.

Muitas vezes, essas denúncias são exclusivas. Ainda ontem, no Roda Viva, o Gabrielli disse que não tem como assegurar que todos os contratos da Petrobras são corretos. E não tem mesmo, porque são muitos e a empresa é imensa. Alguém, que tem algum interesse em mostrar isso (e não é ilegítimo ter interesses, porque toda fonte tem), passa a um jornalista documentos a respeito de algum desses contratos. Por mais sólida que seja a informação, o jornalista precisa:

    a) dar chance para a empresa responder;

    b) guardar um certo grau de sigilo sobre sua apuração para evitar que concorrentes "chupem" a pauta.

No momento em que a Petrobras passa a publicar as perguntas antes da publicação da matéria, ela abre a pauta para qualquer concorrente ler. "E daí?", perguntaram alguns. "Problema dos jornalistas", dizem. OK, realmente é problema dos jornalistas. Mas acontece que isso pode inibir jornalistas de procurar a empresa para se manifestar sobre as denúncias, pra não abrir a pauta. E isso pode ter conseqüências graves.

Digamos que alguém resolva parar de pedir o outro lado da Petrobras, pra não abrir a pauta. Especialmente em matérias mais sensíveis. Publica uma matéria com denúncias graves sem ouvir a acusada. Esse é o caminho mais curto pra tomar um processo nas costas.

É lícito supor que a Petrobras, ao publicar as perguntas antes das reportagens, quer chegar a um ponto que iniba o pessoal de fazer matérias críticas sobre ela. Quer matar as matérias críticas antes que sejam publicadas. Como? Ora, ou o sujeito abre pra concorrência ou não procura a Petrobras e toma um processo. Que dilema, hein?


4) A "apuração por e-mail"

Um professor de jornalismo fez uma provocação no Twitter: "checagem por e-mail ninguém merece".

Eu concordo com ele, em parte. É tosco fazer entrevista por e-mail? De certa forma é, embora o e-mail garanta que os dois lados (jornalista e fonte) tenham um documento com a íntegra do que foi dito.

Exatamente por isso, hoje absolutamente todas as assessorias de imprensa invariavelmente pedem, quando um jornalista encaminha uma solicitação, que ele mande as mesmas perguntas por e-mail. Às vezes, eles mandam as respostas por e-mail. Às vezes, entram em contato por telefone (e aí a gente tem que fazer as perguntas tudo de novo).

Realmente, ninguém merece. O problema é que essa é a prática que as assessorias, que monitoram o contato das fontes com os jornalistas, adotaram. E, hoje em dia, qualquer boteco tem assessoria de imprensa. Eu prefiro falar diretamente com as fontes ou marcar entrevista por meio de suas secretárias. Mas, em empresas grandes, é sempre mais difícil. Na Petrobras, então, é quase impossível. Sempre que eu tentei marcar entrevistas para o Los Angeles Times com a Petrobras, era um espetáculo o tanto que me enrolavam. Acho que isso não vai mais acontecer, porque ontem peguei o cartão da assessora direta do Gabrielli.

O grosso da apuração dificilmente é feito por e-mail. A resposta da assessoria dificilmente vai trazer alguma informação bombástica - vai ser a resposta oficial, sempre. Mas em empresas grandes o contato acaba passando por elas, e elas só trabalham com e-mail. Com isso, têm o registro de perguntas e respostas inclusive pra publicar em seus blogs.


5) A preocupação com a transparência

O argumento mais bonito dado pelo presidente da Petrobras pra justificar a criação do blog é o de que a empresa quer usar a internet para demonstrar que é completamente transparente. "Como toda mídia, por definição, edita, queremos apresentar a íntegra", disse o Gabrielli.

O grande problema com esse argumento é que ele não reflete as práticas da empresa na internet. Dados sobre contratos e patrocínios, por exemplo, deviam estar disponíveis automaticamente no site, com acesso fácil, para qualquer cidadão poder ir lá checar, sem precisar jornalista nenhum mandar perguntas. Não é isso que acontece. Vejam esta matéria do meu mestre Rubinho Valente:

    Usado frequentemente pelo presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, como resposta às críticas sobre falta de transparência nos gastos, o site da empresa na internet omite dados de contratos anteriores a junho de 2008, dedica apenas uma linha à descrição do objeto da contratação e deixa de informar a execução do contrato --quanto recebeu a empresa em certa data.

    Se a prática for mantida pela empresa, em julho todos os dados de junho de 2008 desaparecerão das opções de pesquisa. E assim sucessivamente: de 12 meses para trás, os dados desaparecem.

Traduzindo: com uma mão, a Petrobras cria o blog pra polir uma imagem de transparente. Com a outra, dificulta o acesso a informações que precisam estar transparentes para qualquer cidadão.

Quem se interessa por projetos culturais, por exemplo, não tem como ver quanto exatamente a Petrobras gastou em cada um dos que financiou. E ela é a maior financiadora da produção cultural brasileira.

Alguns textos lúcidos a respeito, publicados em blogs de jornalistas (e ex-jornalistas, como se define o Abramo) a quem respeito muito:

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Prêmio Jornalismo da Terra pode levar você a Copenhague

A causa é nobre, a cidade é fabulosa e a conferência será importantíssima. Traduzo abaixo, de maneira resumida, release do Internews:

    Prêmio Jornalismo da Terra Culmina em Conferência de Copenhague

    (5 de junho de 2009) Internews, a organização global de assistência à mídia, anuncia o Prêmio Jornalismo da Terra hoje, no Dia do Meio Ambiente, convidando jornalistas profissionais e repórteres cidadãos do mundo inteiro para inscreverem seus melhores trabalhos sobre as mudanças climáticas. Os vencedores serão levados à Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP15), que ocorre em Copenhague em dezembro. Lá, eles cobrirão essas negociações fundamentais e serão homenageados em uma cerimônia de premiação.

    Em Copenhague, 200 países devem concluir negociações sobre o futuro do Protocolo de Kyoto para combater as mudanças climáticas. A complexidade e o impacto potencial das medidas que estarão em negociação em dezembro tornam Copenhague uma das reuniões mais importantes da história.

    O Internews criou neste ano o Prêmio Jornalismo da Terra para estimular e reconhecer a melhor cobertura das mudanças climáticas e da agenda de Copenhague. O Internews planejou os prêmios para que sejam tão acessíveis e relevantes quanto possível para meios de comunicação nacionais, locais e cidadãos ao redor do mundo.

    Ao todo, 14 prêmios estão abertos a inscrições:

    Sete prêmios regionais para reportagens a respeito das mudanças climáticas: Eurásia, Sul da Ásia, Leste Asiático, África Subsaariana, Oriente Médio & Norte da África, América Latina & Caribe e América do Norte, Europa & Austrália.

    Seis prêmios temáticos: Prêmio das Negociações, Prêmio Vozes Humanas, Prêmio Energia, Prêmio Florestas, Prêmio Mudanças Climáticas e a Natureza, Prêmio Adaptação às Mudanças Climáticas.

    O 14° prêmio - o Prêmio Público Global - será escolhido pelo público, que será convidado a votar online na melhor reportagem entre os vencedores dos prêmios regionais e temáticos, por meio de uma campanha de redes sociais em plataformas como o Facebook e o Twitter.

    Um 7° prêmio temático - o Prêmio MTV de Mudanças Positivas - estará aberto a inscrições a partir de 22 de junho.

    Os jornalistas vencedores serão convidados a Copenhague para uma cerimônia durante a conferência e receberão apoio da Internews para cobrir o COP15 para os meios de comunicação onde trabalham.

    Os detalhes dos prêmios estão disponíveis em http://awards.earthjournalism.org, onde os jornalistas podem se registrar e enviar desde já suas inscrições até 7 de setembro de 2009 (à meia-noite em Paris, 19h no Brasil).

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O retrato da nossa miséria

Três artigos que li hoje evidenciam a miséria do debate sobre jornalismo no Brasil.

O primeiro é um release da Medill School of Journalism. A faculdade está inaugurando laboratórios para experimentar com novos tipos de notícia, juntando estudantes de jornalismo e de computação. Por exemplo:

    Eles incluem um programa que cria matérias de esportes geradas pelo computador a partir de bancos de dados de resultados e lance-a-lance; um plug-in do Microsoft Word que permite aos repórteres uma pesquisa e checagem rápida de seus textos enquanto os escrevem, sem precisar ir a um buscador da internet; um aplicativo Web do iPhone que dá as notícias diárias em pedaços de 5, 10 e 20 minutos para leitores famintos por notícias e que têm pouco tempo para ler; e dois aplicativos baseados no Twitter.

No meio de toda a crise que assola a imprensa americana, com até o New York Times tendo dificuldades financeiras, a faculdade investe, pesquisa e é otimista: "Neste momento, temos os recursos, tempo e energia para fazer pesquisa e desenvolvimento que a indústria da notícia não tem", disse o professor de multimídia Jeremy Gilbert.

Os aplicativos que eles criaram - o plugin do Word, por exemplo - se adaptam ao trabalho de produção do online e do impresso. O do iPhone pode criar uma plataforma nova para apresentar conteúdo. O de esportes pode poupar o trabalho dos repórteres - que, em vez de ter que mandar flashes mecânicos de um parágrafo com fragmentos de notícia, podem acompanhar com mais atenção o jogo e fazer mais entrevistas pra depois fazer uma matéria mais completa.

Legal, né? O debate de fundo é o seguinte: ok, o ambiente jornalístico está em crise; o que nós, que somos pagos para pensar, podemos fazer pra reverter a situação? Nobilíssima função, diga-se.

E no Brasil?

Os impressos não estão numa crise tão grande. As tiragens até estão aumentando - mas, se for olhar de perto, pode-se ver que o que alavanca isso são as tiragens dos jornais populares, baratinhos, que pegaram um nicho de mercado pouco explorado de consumidores que começam a pegar hábito de ler. Os jornais de qualidade já disputam leitores com a Web, embora não tão acirradamente que cheguem a ter os problemas do New York Times. O cenário é pintado como róseo, ao menos por enquanto. Até porque o online não dá dinheiro suficiente pra justificar qualquer mudança. E em time que está ganhando não se mexe, mesmo que o placar esteja no 0 a 0. O time da casa traz vantagem de jogos passados, afinal.

No debate público do meio acadêmico tupiniquim, há fundamentalmente duas questões de fundo: o da obrigatoriedade ou não do diploma para jornalistas e o da reforma do currículo. O currículo atual continua privilegiando teorias da comunicação e especialmente os teóricos do blablablá. Observar os títulos dos trabalhos apresentados no maior congresso de pesquisa em jornalismo aponta poucos caminhos para o futuro - no máximo reconta/adjetiva o passado e constata/adjetiva o presente; observar os apresentados no maior congresso de pesquisa em comunicação é um exercício de humor e paciência. No encontro que reúne a nata dos estudos de pós-graduação em comunicação, é revelador ver quantas vezes a palavra "como" aparece nos títulos. E não é o "como" traduzido em inglês para "how". É o traduzido em inglês para "as".

Vamos ao principal website de crítica de mídia brasileiro, o Observatório da Imprensa. São de lá os dois artigos que li sobre os dois debates de fundo.

A questão de fundo que causa mais polêmica é a da obrigatoriedade ou não do diploma de jornalismo. Ela foi instituída pelo regime militar, é defendida com unhas e dentes pelos sindicatos e pela Fenaj e recebida com gratidão pela explosão de faculdades particulares que o Brasil viu nos últimos 15 anos. Na teoria, a faculdade é o lugar por excelência para pensar sobre o jornalismo. Na prática, os jornalistas são formados nos cursos que geram as pesquisas do Intercom. Então, vem este artigo do Rafael Motta, que defende a obrigatoriedade mas critica a qualidade dos cursos:

    De fato, o jornalista sai da faculdade sem especialização. Porém, se os cursos superiores forem melhorados, com a introdução de noções sobre Direito, Economia, Estatística, História (revisitada, não aquela que atribui a Cabral o "descobrimento" do Brasil), Geopolítica e realidade regional (sabe-se do país, mas pouco se conhece da própria cidade), o profissional de Comunicação terá muitas áreas onde atuar com competência.

Mas será que essa receita é suficiente? Aí é que entra o segundo artigo. O professor Rogério Christofoletti toca na questão da reforma do currículo. Ele diz:

    Jovens repórteres têm saído para suas matérias sem saber como e onde buscar informações. Muitas vezes, não sabem formular perguntas ou conduzir entrevistas. Jovens pauteiros elaboram pautas inconsistentes ou que pouco orientam repórteres. Editores, nem sempre jovens, penam em como articular os conteúdos e materiais que têm à disposição e que devem oferecer ao público.

    Isto é, os egressos dos cursos de Jornalismo precisam ter acesso a disciplinas e conteúdos que lhes permitam ler cenários, compreender realidades, analisar circunstâncias. Estudantes de Jornalismo precisam ter aulas de Sociologia, mas não sairão sociólogos formados. Sairão jornalistas que precisam saber buscar informações, apurar, relatar com precisão e correção. Sairão jornalistas que devem inquirir sociólogos, antropólogos ou outras fontes de informação com rigor, atenção e foco.

    Por isso, insisto, a defesa de conteúdos mais humanísticos nos cursos de Jornalismo é uma falsa questão. Não é o que a comissão busca. Os cursos já têm disciplinas dessa natureza, e nossos problemas de formação têm sido mais graves na capacidade dos jovens profissionais atuarem bem na especificidade da profissão.

Ou seja: pela observação do professor Christofoletti (que fecha com a minha, em grande parte), passamos longe de Medill. E possivelmente continuaremos passando longe no que depender da média do ambiente acadêmico.

Por mais que se tratem de senhores e senhoras pagos para pensar de maneira complexa, na hora de estruturar um currículo a coisa vira um gre-nal entre humanismo e tecnicismo, formar pra vida e formar pro mercado. Mas observe: há vários tons de cinza entre os dois pontos. "Formar para o mercado" de hoje é um tiro no pé: daqui a quatro anos, quando os alunos se formarem, esse mercado já vai ter mudado completamente de cara e essa formação supostamente "realista" vai estar defasada. "Formar pra vida" é um negócio vago o bastante pra ninguém saber direito o que é.

A questão do "pra quê" da faculdade de jornalismo no Brasil me preocupa há anos - OK, desde o tempo em que eu faltava aulas por causa do tédio que me causavam. Foi isso que me levou a ler a fundo a obra de Philip Meyer, aquele cavalheiro a quem os que não leram seus livros gostam de imputar a previsão nostradâmica de que a imprensa vai acabar em 2043 (mal citada: leiam "O incrível Nostradamus de gravata borboleta, que escrevi). Ele é um dos mais profundos pensadores do jornalismo, especialmente porque pensa usando dados. E ele não apenas sabe usá-los: desde os anos 60 ele ensina jornalistas a usá-los.

Quando fiz minha monografia, eu o entrevistei. Toquei na questão do diploma, numa entrevista feita já há dez anos. Ele disse o seguinte, que lembra a experiência de Medill e cutuca a miséria do debate brasileiro:

    O primeiro problema para o jornalismo de precisão no Brasil será superar um sistema muito rígido que é feito para resistir à inovação. A maior barreira que vejo, de minha perspectiva norte-americana, é a lei que exige que os jornalistas sejam formados em escolas de jornalismo. Essa lei dá às escolas um mercado garantido e as priva do incentivo de fazer melhor as coisas. Sem a lei, as escolas teriam que visivelmente adicionar valor às habilidades existentes de seus estudantes para que pudessem sobreviver. Uma escola profissional deve ser a fonte da inovação e do desenvolvimento para a profissão a que serve. Mas, com um mercado cativo, não há necessidade de que ela faça nada além de assinar certificados de conclusão.

Interessante, não?

Eu já era contra a obrigatoriedade pela obrigatoriedade do diploma. Mas o argumento de Meyer me abriu novos jeitos de pensar. A faculdade de jornalismo precisa SE FAZER indispensável. Ela só pode fazer isso por meio da relevância do que produz. Só que, com a obrigatoriedade do diploma, ela só precisa assinar pedaços de papel ao final de quatro anos. Porque, ao fim e ao cabo, cada formado se vira pra achar seu caminho profissional.

Nas redações, tal como bem observou o professor Gilbert, de Medill, estão todos muito ocupados produzindo como já sabem. Cada vez mais ocupados, com a abundância de notícias a cobrir e escassez de gente pra cobri-las direito. Os jornais seguem comemorando o aumento das tiragens dos impressos (alavancadas pelos jornais baratinhos, geralmente produzidos cozinhando o copy-paste pego dos de qualidade, cujas tiragens tendem a cair) e experimentam pouco com novas formas de contar histórias usando a Web pra aprofundar o que se faz no impresso. Como online não dá grana, grassa na internet o churnalismo - aquele jornalismo barato e burro de pressa e copy-paste. Dá pra tentar fazer melhor que isso, mas toma tempo, horas-cadeira e gente pensando. São luxos escassos.

Qualquer crítica disso acaba sendo encaixada na enfadonha dicotomia "impresso versus online". (Pra mim, é muito claro que não há uma oposição entre eles. Podem ser criadas formas inteligentes de um meio alavancar o outro.) Os editores estão atentos ao que acontece nos Estados Unidos, mas ainda soa muito como ficção científica aos ouvidos nacionais. Há boas iniciativas, mas muito isoladas. E olha que o Brasil tem uma janela interessante para inovar antes que a banda larga se popularize a ponto de ameaçar as tiragens dos populares.

O lugar privilegiado para gerar qualquer tentativa de solução para os problemas do jornalismo é o ambiente acadêmico. Lá tem gente que é paga pra pensar e pra pesquisar. Ocorre, porém, que a pequenez do debate acadêmico brasileiro deixa a busca de soluções de lado. As faculdades são obrigatórias porque o general mandou, o sindicato quer e o reitor agradece, não por mérito do que produzem. E muitas vezes sequer do que produzem naqueles a quem formam.

Desse jeito, infelizmente, vai ser muito triste a hora em que a crise de verdade chegar ao Brasil. Mais triste que nos Estados Unidos.