Ontem, estive no programa Roda Viva, da TV Cultura, na bancada do Twitter. O entrevistado era o Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras. E o assunto do dia era quentíssimo: no começo do mês, sob a sombra da CPI recém-aberta e muito disputada (sobre a qual
falei outro dia no Notícias MTV), a empresa
abriu um blog para publicar a íntegra das perguntas feitas pela imprensa e respostas dadas pela empresa para essas reportagens.
O que pode ser polêmico em fazer um blog para isso? A princípio, as respostas refletem a posição oficial da empresa, e se o blog é da Petrobras não tem nada de errado. Mas o problema é que as perguntas dos jornalistas eram publicadas no blog da Petrobras antes da publicação das matérias.
(Pra rebater, jornalistas criaram um blog
para escancarar perguntas não respondidas pela Petrobras.)
A discussão não é nada simples, embora as claques resumam tudo a palavras de ordem. Escrevi bastante sobre o caso do blog da Petrobras no Twitter, especialmente durante o Roda Viva, mas vou resumir aqui minha opinião sobre alguns pontos do assunto.
1) A sombra da CPIParece óbvio que o blog foi criado para rebater, antes da publicação, reportagens críticas que certamente devem se avolumar na imprensa, com a pilha enorme de vazamentos que sempre rola numa CPI. Quando eu trabalhava na Transparência Brasil, no banco de dados Deu no Jornal, era o auge das CPIs do mensalão. Todo dia a equipe recolhia em média 150 notícias sobre o caso. Em certos dias, chegou a mais de 300 - sobre um só assunto.
Pessoalmente, acho que há várias questões malcontadas e pouco transparentes na gestão da Petrobras. Mas, também pessoalmente, não sei se uma CPI é um instrumento eficiente para resolvê-las. Uma CPI sempre acaba sendo uma espécie de circo, uma busca desenfreada por holofotes, mais do que de solução para problemas.
O melhor exemplo disso é a CPI dos Sanguessugas grande sucesso do Congresso em 2006. (O caso dos sanguessugas era aquele em que deputados apresentavam emendas ao orçamento liberando verba para comprar ambulâncias em municípios; uma empresa, a Planam, seria responsável por propinar deputados e prefeitos para garantir que ela levasse essa grana.) O
relatório da CPI descrevia os caminhos e descaminhos do golpe, mas não chegava a fazer recomendações eficientes para trancar os ralos. Tanto que esquemas arrepiadoramente semelhantes aconteceram antes (como o caso da Operação Pororoca) e depois (como o caso da Operação Navalha).
Por todo o barulho que gerou, a CPI dos Sanguessugas não gerou solução para fechar esses ralos, porque todo o debate sobre ela acabou caindo mais na armadilha da fulanização (quem é sanguessuga, quem não é) e menos na análise do esqueleto do golpe, que poderia gerar recomendações que evitassem futuros vermes com esquemas semelhantes. Desenvolvi um pouco melhor esse raciocínio
num artigo para a Abraji, em 2007.
2) As ferramentas digitais e a políticaSou um entusiasta da tecnologia. No dia em que eu sair por aí dizendo que alguém não tem o direito de ter um blog, por favor, me internem. Um blog é uma ferramenta a serviço de quem o usa. A questão é como o sujeito o usa. E, nesse caso específico, o blog é uma arma de guerrilha.
A estratégia da Petrobras em abrir o blog e publicar as perguntas antes das reportagens é tentar esvaziar o noticiário crítico, primeiro ao abrir as pautas da imprensa para os concorrentes antes da publicação (falo sobre isso no próximo item) e depois ao arregimentar uma legião de comentadores da Web (essa raça que se reproduz como os gremlins) com discurso pronto e ensaiado pra "sair batendo" a qualquer sombra de crítica à empresa.
Pelo que eu vi ontem no Roda Viva, eles estão sendo muito hábeis nisso. Sábado, o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli,
inaugurou seu twitter. Hoje pela manhã, ele escreveu que "é incrivel como o blog do Noblat só traz comentários negativos sobre a Petrobras". Hoje à tarde já tinha gente no Twitter ecoando o discurso e dizendo que o blog do Noblat tinha ciúme do blog da Petrobras.
Assim funcionam as campanhas na internet: ecos, repetições, controlcê e controlvê. Ler dá trabalho, ninguém quer. Escrever, todo mundo sabe (ainda que mal). Dar controlvê é ainda mais fácil. Aí, na lógica do gre-nal e da briga de bugio, é ponto pra quem grita mais alto. Isso é do jogo: se a Petrobras entendeu esse vezo da internet e passou a usá-lo como arma política, pode ser chato aturar a gritaria, mas ela está apenas aproveitando uma característica já existente.
O problema todo, me parece, é a questão de vazar as perguntas antes da publicação. É esse o próximo ponto.
3) O "sigilo da pergunta"As claques da internet vêm ironizando os jornais por reclamar de a Petrobras publicar as perguntas e respostas antes de as matérias saírem. Perguntam se existe sigilo de pergunta e dizem que a imprensa tem medo de perder o "monopólio da informação". As críticas todas começaram depois que meus amigos Rubens Valente e Ana Flor fizeram
uma matéria sobre os gastos da Petrobras com advogados, publicada na Folha deste domingo, e o blog publicou as perguntas ainda na sexta.
A Folha reclamou.
É lógico que pergunta não tem sigilo e que monopólio da informação é algo que não existe em tempos de internet. E, como jornalista e instrutor de jornalismo, acho que é sempre muito interessante ler uma matéria e ter ao lado a íntegra da entrevista que gerou algumas das informações dela. Se a Petrobras publicasse a íntegra das respostas junto com um link da matéria, para o leitor comparar, eu não veria problema algum. Pelo contrário, veria um grande serviço sendo prestado ao jornalismo e aos leitores em geral.
A grande questão aí é a seguinte: qualquer reportagem crítica que preze sua seriedade tem que ter o que chamamos de "outro lado". Se o jornalista vai publicar denúncias sobre as práticas de uma empresa, por exemplo, por mais que ele tenha documentos comprovando a prática é preciso apresentar as alegações para que a empresa possa se defender, respondendo.
Muitas vezes, essas denúncias são exclusivas. Ainda ontem, no Roda Viva, o Gabrielli disse que não tem como assegurar que todos os contratos da Petrobras são corretos. E não tem mesmo, porque são muitos e a empresa é imensa. Alguém, que tem algum interesse em mostrar isso (e não é ilegítimo ter interesses, porque toda fonte tem), passa a um jornalista documentos a respeito de algum desses contratos. Por mais sólida que seja a informação, o jornalista precisa:
a) dar chance para a empresa responder;
b) guardar um certo grau de sigilo sobre sua apuração para evitar que concorrentes "chupem" a pauta.
No momento em que a Petrobras passa a publicar as perguntas antes da publicação da matéria, ela abre a pauta para qualquer concorrente ler. "E daí?", perguntaram alguns. "Problema dos jornalistas", dizem. OK, realmente é problema dos jornalistas. Mas acontece que isso pode inibir jornalistas de procurar a empresa para se manifestar sobre as denúncias, pra não abrir a pauta. E isso pode ter conseqüências graves.
Digamos que alguém resolva parar de pedir o outro lado da Petrobras, pra não abrir a pauta. Especialmente em matérias mais sensíveis. Publica uma matéria com denúncias graves sem ouvir a acusada. Esse é o caminho mais curto pra tomar um processo nas costas.
É lícito supor que a Petrobras, ao publicar as perguntas antes das reportagens, quer chegar a um ponto que iniba o pessoal de fazer matérias críticas sobre ela. Quer matar as matérias críticas antes que sejam publicadas. Como? Ora, ou o sujeito abre pra concorrência ou não procura a Petrobras e toma um processo. Que dilema, hein?
4) A "apuração por e-mail"Um professor de jornalismo fez uma provocação no Twitter: "checagem por e-mail ninguém merece".
Eu concordo com ele, em parte. É tosco fazer entrevista por e-mail? De certa forma é, embora o e-mail garanta que os dois lados (jornalista e fonte) tenham um documento com a íntegra do que foi dito.
Exatamente por isso, hoje absolutamente todas as assessorias de imprensa invariavelmente pedem, quando um jornalista encaminha uma solicitação, que ele mande as mesmas perguntas por e-mail. Às vezes, eles mandam as respostas por e-mail. Às vezes, entram em contato por telefone (e aí a gente tem que fazer as perguntas tudo de novo).
Realmente, ninguém merece. O problema é que essa é a prática que as assessorias, que monitoram o contato das fontes com os jornalistas, adotaram. E, hoje em dia, qualquer boteco tem assessoria de imprensa. Eu prefiro falar diretamente com as fontes ou marcar entrevista por meio de suas secretárias. Mas, em empresas grandes, é sempre mais difícil. Na Petrobras, então, é quase impossível. Sempre que eu tentei marcar entrevistas para o Los Angeles Times com a Petrobras, era um espetáculo o tanto que me enrolavam. Acho que isso não vai mais acontecer, porque ontem peguei o cartão da assessora direta do Gabrielli.
O grosso da apuração dificilmente é feito por e-mail. A resposta da assessoria dificilmente vai trazer alguma informação bombástica - vai ser a resposta oficial, sempre. Mas em empresas grandes o contato acaba passando por elas, e elas só trabalham com e-mail. Com isso, têm o registro de perguntas e respostas inclusive pra publicar em seus blogs.
5) A preocupação com a transparênciaO argumento mais bonito dado pelo presidente da Petrobras pra justificar a criação do blog é o de que a empresa quer usar a internet para demonstrar que é completamente transparente. "Como toda mídia, por definição, edita, queremos apresentar a íntegra",
disse o Gabrielli.
O grande problema com esse argumento é que ele não reflete as práticas da empresa na internet. Dados sobre contratos e patrocínios, por exemplo, deviam estar disponíveis automaticamente no site, com acesso fácil, para qualquer cidadão poder ir lá checar, sem precisar jornalista nenhum mandar perguntas. Não é isso que acontece. Vejam esta matéria do meu mestre Rubinho Valente:
Usado frequentemente pelo presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, como resposta às críticas sobre falta de transparência nos gastos, o site da empresa na internet omite dados de contratos anteriores a junho de 2008, dedica apenas uma linha à descrição do objeto da contratação e deixa de informar a execução do contrato --quanto recebeu a empresa em certa data.
Se a prática for mantida pela empresa, em julho todos os dados de junho de 2008 desaparecerão das opções de pesquisa. E assim sucessivamente: de 12 meses para trás, os dados desaparecem.
Traduzindo: com uma mão, a Petrobras cria o blog pra polir uma imagem de transparente. Com a outra, dificulta o acesso a informações que precisam estar transparentes para qualquer cidadão.
Quem se interessa por projetos culturais, por exemplo, não tem como ver quanto exatamente a Petrobras gastou em cada um dos que financiou. E ela é a maior financiadora da produção cultural brasileira.
Alguns textos lúcidos a respeito, publicados em blogs de jornalistas (e ex-jornalistas, como se define o Abramo) a quem respeito muito: