domingo, 29 de março de 2009

Linkando à revelia

No Reino Unido, tal como no Brasil (e nos EUA e na Argentina e etc), os sites de notícias não têm muito o costume de dar o link dos estudos e estatísticas que noticiam. Outro dia, o Alec Duarte comentou o assunto no Webmanário.

Leitores especializados, que geralmente sabem mais que o repórter a respeito do assunto, sempre podem querer ler o estudo original para ver de que realmente ele tratava (especialmente quando o pessoal faz coisas como isto e isto). Pensando nesses leitores de alto nível, um doutorando em mineração de dados criou o The Science Behind It.

Lá, você coloca um link e ele procura os seguintes itens: nomes pessoais (pra achar o do potencial autor), nome da publicação onde saiu o estudo, nome de instituições (que pode ser onde o estudo foi produzido) e data da publicação da notícia (pra ter uma idéia de como limitar a busca). A partir disso, ele tenta localizar o estudo original à revelia dos editores da notícia online que não deram os links.

Por enquanto, só funciona com a BBC e a Reuters, e mesmo assim basicamente apenas com matérias sobre medicina (os estudos são procurados automaticamente no banco de dados especializado e público Medline). O link de teste é o desta notícia sobre a preferência das crianças por doces. Deu isto aqui.

É um recurso interessante. Mas mais interessante ainda seria a adoção da boa prática de dar os links aos interessados. Não custa nem um centavo a mais para os jornais online. Custa só um pouquinho de neurônios dos jornalistas. E nem é tanto assim.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Um choque de transparência para o Senado

Vira e mexe, rola algum escândalo com funcionários do Legislativo. Ora eles iam trabalhar no Congresso por indicação de sanguessugas, ora são terceirizados que vendem fitas, ora são diretorias excessivas cujo número a Mesa Diretora não faz a mínima questão de esclarecer.

Tem um jeito fácil de evitar escândalos com a composição do funcionariado de qualquer casa legislativa: publicar na internet a lista completa e atualizada dos funcionários, de preferência com cargos, lotação, função e gratificação. Salário, talvez.

Não é nada revolucionário e nem mania de fã da Suécia. O Executivo tem um site que faz mais ou menos isso, o Siorg. Por exemplo, aqui você pode consultar a árvore da hierarquia. Se for lá na Casa Civil, dá pra ver todos os assessores especiais lá lotados, com seu respectivo DAS. Esse código indica a faixa de salário do servidor, que é definida em lei. Assim, você pode saber onde o Fulano trabalha e fuçar quanto ele ganha e checar a quem ele responde. O Siorg também tem uma busca pra você procurar pelo nome do servidor. Mas ele só pega o Executivo.

O que me espanta é que o Senado gasta uma fábula de dinheiro por ano -- são R$ 87 por segundo, pelo orçamento de 2009 -- e não presta sequer serviços de informação estruturada eficientes. Isso sim me parece desperdício de dinheiro público. OK: ele tem um site, uma TV e um jornal (que, aliás, eu recebo). Mas, tirando a sempre genial consulta às atas de CPIs e movimentações de projetos de lei no site, tudo isso acaba se prestando mais a envernizar a vaidade de suas excelências.

Aliás, alguém mais ouviu falar em como ficou a questão da prestação de contas nota por nota das verbas indenizatórias depois desse escândalo todo? Pois é.

O churnalismo e as vaquinhas

Vocês leram a notícia sobre uma pesquisa segundo a qual vaquinhas que têm nome dão mais leite?

Fofo. Meigo. Deve dar acesso pra caramba. Mas é uma bobagem sem tamanho: é mais um caso em que correlação e causação foram confundidas. Correlação, como eu lembrei aqui outro dia, é quando dois fatores variam juntos. Pode ser que um cause o outro, mas também pode ser que os dois sejam causados por um fator externo.

Ter nome e dar leite não tem conexão lógica de causa. Mas pode ter correlação. Por exemplo: se uma vaca tem nome, é porque é tratada "pessoalmente" pelos donos. Logo, provavelmente recebe mais e melhor comida do que uma vaquinha anônima. Sendo bem alimentada, dá mais leite.

Não precisa entender de pecuária pra chegar a essa conclusão. Precisa ter um pingo de senso crítico, apenas.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Como escrever para a Web - o livro

Traduzi para o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas o livro "Como Escrever para a Web", do jornalista colombiano Guillermo Franco. Ele está disponível de graça, em PDF, no site do Knight Center. Baixe neste link a obra.

O livro, originalmente em espanhol, já tem downloads nas dezenas de milhares. A edição em português pode ser um sucesso ainda maior. Só depende de vocês.

Comentem aqui, depois, o que vocês acharam do livro (e da tradução, também, especialmente se encontrarem deslizes).

quarta-feira, 18 de março de 2009

Quer fazer a diferença? Aprenda a programar

Estamos num cenário de transição no jornalismo, no mundo inteiro. Os melhores trabalhos que surgem, porém, têm tirado vantagem das potencialidades da internet para experimentar novas formas de apurar e editar material jornalístico.

O New York Times tem um grupo especializado nisso, chefiado pelo meu mestre Aron Pilhofer, criando bancos de dados e visualizações de pirar o cabeção. O Times e o Guardian abriram seu sistema para desenvolvedores criarem ferramentas usando seus dados. Novos formatos jornalísticos estão emergindo aos poucos aí. Bancos de dados e mapas interativos, por exemplo.

Tinha que ver o sorriso do Aron quando mostrei a ele o Excelências, que então eu coordenava e com o qual tínhamos acabado de ganhar o Esso de Melhor Contribuição à Imprensa. Era mais ou menos o tipo de coisa que eles também estavam fazendo lá e que por aqui só tinha caído a ficha para uma ONG. Escrevi sobre isso para o Observatório da Imprensa em outubro de 2006.

Charles Arthur, editor do suplemento de tecnologia do Guardian, recomenda que um jovem jornalista que queira se diferenciar da manada precisa ter noções de como funciona a programação de um computador. Ele diz:

    Isso não se significa que você não deva conversar com as fontes e questionar o que ouve e tentar descobrir outras formas de arrancar coisas das pessoas. Mas, hoje em dia, os computadores também são uma espécie de fonte primária. Você precisa aprender a interrogá-los com eficiência e citá-los significativamente, também.

Eu mesmo não programo, mas conheço um pouco a lógica. No Brasil, eu só conheço um jornalista da minha geração que manja muito de programação: Pedro Valente, noutra encarnação internética conhecido como Homem-Chavão.

Ele e o Fabiano Angélico propuseram um desafio interessante no Twitter, estes dias, para seus contatos programadores: cruzar a lista das empresas da lista negra do governo com a lista do financiamento de campanha. A partir disso, descobrir que políticos foram financiados por essas empresas consideradas inidôneas por fraudes em licitações e outros acepipes do gênero.

Resultou daí uma lista, publicada pelo Fabiano, de 26 empresas de nome sujo na praça que doaram a 41 políticos na eleição de 2008. Nove desses políticos foram eleitos prefeitos, incluindo Beto Richa, em Curitiba, e Lindbergh Faria, em Nova Iguaçu. Oito foram eleitos vereadores.

Tudo isso são informações públicas. A olho nu, sem cruzar bancos de dados, nenhum repórter extrairia essas informações. Quem extraiu foi Julio Biason, que se autoclassifica como "old-school coder".

O Pedro deu uma lamentada no Twitter:

    Será que blogueiros topam um desafio de apuração, designers encaram um desafio de visualização, ou só programadores têm essa cultura?

Essa dissonância cultural é crucial para qualquer futuro que se possa imaginar para um jornalismo online inteligente, diferente do churnalismo que predomina hoje.

terça-feira, 17 de março de 2009

Censores com censores fazem zigue, zigue, zá

A Embraer, que fez de tudo pra atrapalhar a vida do repórter que revelou em dezembro o plano de demitir mais de 4 mil funcionários, teve 5% de seu capital comprado pelo banco Barclays, inglês.

O anúncio sai no mesmo dia em que o Barclays obteve na Justiça uma censura ao Guardian por publicar uma série de documentos internos vazados da empresa, mencionando um plano do banco de fazer investimentos por meio de uma complexa teia de empresas, incluindo algumas nas ilhas Cayman, pra escapar dos impostos.

Segundo o Barclays, o Guardian de agir como quem toma a justiça em suas próprias mãos ao publicar os documentos. O tribunal aceitou a censura. No caso da Embraer, não houve processo, mas o repórter foi humilhado em público.

A vida imita o spam

Você certamente já recebeu uma história parecida em seu e-mail. Um livro de geografia, distribuído para alunos da sexta série de um território riquíssimo, traz noções completamente erradas sobre um país pobre latino-americano.

Não, não é a volta daquela corrente sobre o suposto livro de geografia americano que "tira" a Amazônia do Brasil.

Trata-se de um livro de geografia que realmente existe, é distribuído na rede estadual de São Paulo e, não contente em ter dois paraguais, ainda trocou o verdadeiro de lugar com o Uruguai. Ficou assim a imagem:


A Secretaria de Estado da Educação bota a culpa toda em quem imprimiu o livro e diz que não vai trocar. Menos de 2% dos exemplares teriam defeitos, mas a Folha encontrou livros defeituosos em várias cidades.

Os paraguaios já têm o Brasil entalado na garganta por quererem aumentar os preços pagos pelo Brasil pela energia excedente que compra da parte paraguaia de Itaipu. Agora, mais essa.

E sabe o que é pior? Explico.

Quando os brasileiros se revoltavam com a corrente do livro americano, estavam reagindo a uma falsificação grosseira possivelmente feita por milicos de pijama. A indignação nacionalista apontava um cálculo maquiavélico.

Quando os paraguaios se revoltarem com a notícia do livro brasileiro, estarão reagindo apenas a mais uma demonstração do analfabetismo funcional institucional que rege o Brasil. Mas a indignação nacionalista também apontará um cálculo maquiavélico.

Pelo menos o livro ofensivo aos paraguaios de fato existe. Infelizmente. E o pior: existe por burrice.

Todos os homens da senadora

Meu amigo Eduardo Militão é um repórter raçudo do site Congresso em Foco. Ele está em cima do rolo das passagens aéreas indevidas emitidas na cota da senadora Roseana Sarney para amigos e parentes. Ele e outro raçudo, o Lúcio Lambranho, revelaram que as seguintes pessoas receberam passagens emitidas pela agência Sphaera na conta da senadora:

– Heitor Heluy, assessor do TRT 16ª Região – São Luís;

– Sebastião Murad, ex-deputado estadual, dono de uma rede de postos de combustível em São Luís;

– Eduardo Haickel, dono do posto de combustível Tiger, em São Luís;

– Henry Duailibe, dono da concessionária Duvel, da Ford, em São Luís;

– Rosa Lago, mulher do empresário Eduardo Lago, que tem negócios com Fernando Sarney;

– Teresa Sarney , mulher de Fernando Sarney, e

– Adalberto Furtado, conhecido como "Bil", dono da Construtora Estela, de São Luís.

O Ministério Público Federal vai investigar o caso.

Mas o mais legal é olhar a apuração. O Militão fez um telefonema gravado para a agência de viagens, onde a atendente confirmou que as passagens tinham sido emitidas para essas pessoas e pagas pela Roseana. Ele transcreve o telefonema aqui.

Quando a coisa ficou feia, a agência emitiu uma nota negando tudo "à [sic] pedido da Excelentíssima Senhora Senadora Roseana Sarney". A Agência Brasil registrou a negativa, e O Globo copiou a mesma nota da agência. Mas o Militão tinha a conversa gravada.

Eis a importância de gravar telefonemas, especialmente os mais importantes.

Na hora em que vi a matéria, lembrei de uma cena do "Todos os Homens do Presidente". Nela, o Carl Bernstein está cavocando a vida de um assessor da Casa Branca cujo nome estava nas agendas dos invasores do comitê democrata. Recebe a dica de que ele tirava livros sobre Bob Kennedy. Liga pra biblioteca da Casa Branca. A bibliotecária a princípio confirma. Depois de falar com um superior, ela muda completamente de idéia. Do roteiro original:

    What I said before? I was wrong. The
    truth is, I don't have a card that
    Mr. Hunt took out any Kennedy
    material.
    (WOODWARD and BERNSTEIN
    listen, and now there
    is something in her
    voice that wasn't
    there before: fear)
    I remember getting that material out
    for somebody, but it wasn't Mr. Hunt.
    The truth is, I've never had any
    requests at all from Mr. Hunt.
    (beat)
    The truth is, I don't know Mr. Hunt.

A cena vai aí embaixo:

sexta-feira, 13 de março de 2009

Vale A Pena Ver de Novo?, ou o churnalismo dejà-vu

Ando meio sumido, porque ando cheio de trabalho aqui. Mas logo devo retomar o blog.

Voltei hoje com uma patologia do churnalismo à brasileira: o Complexo de Benjor. Se deu no New York Times (ou no Los Angeles Times, ou na Economist, ou na Time), o que todo mundo sabia vira novidade ou até escândalo. Por mais que a imprensa daqui já tenha coberto o caso muito melhor tempos antes.

(Não sabe ou não lembra o que é churnalismo? Leia este post anterior.)

A Economist da semana que vem, que foi pra internet ontem, resenha um estudo sobre o impacto das novelas no comportamento feminino. Elas têm mais parceiros e menos filhos.

Como sói acontecer, a BBC Brasil resenhou a matéria que resenhava o estudo - ela resenha todas as principais matérias sobre o Brasil, enfim. A resenha, que atribui à Economist a revelação, foi copiada e colada tal e qual no Globo Online e no Estadão.com. Repercutiu em blogs, twitter e que-tais.

Pra este news junkie aqui, tinha um negócio que incomodava um tanto: eu já tinha lido aquilo há muito tempo. Com exatamente a mesma repercussão. Fui ao meu Google Reader pesquisar.

Em 17 de abril do ano passado, a mesma BBC Brasil publicou notícia sobre o estudo dos mesmos pesquisadores, dando conta das mesmas descobertas. A repercussão foi a mesma: o G1 e a Folha Online copiaram a matéria da France Presse, por exemplo.

Em tudo isso, ainda fico com a matéria da Economist. Ela tem mais "molho". Vale a Pena Ver De Novo no noticiário nem me incomoda tanto; sacal mesmo é ler exatamente o mesmo texto em vários sites diferentes uma vez por ano. É o churnalismo, enfim.

domingo, 8 de março de 2009

Cobrindo ao vivo com o Twitter


Meu blog sobre o Deep Purple, o Purpendicular, é meu campo de testes de coisas de Web. Foi ali que eu publiquei meus primeiros vídeos, fiz meus primeiros podcasts e pus no ar meu primeiro calendário público e meu primeiro feed de RSS segmentado com notícias de várias fontes. Agora, foi ali que eu fiz minha primeira cobertura ao vivo de um evento usando o Twitter. Veja lá.

Isso é deliberado. Sou da opinião de que a gente só aprende direito a usar uma ferramenta quando a gente já conhece o assunto que se usa para exercitá-la. Por isso é que quando dou aulas de Excel para repórteres de esporte faço os exercícios sobre uma tabela com jogos da Seleção Brasileira, por exemplo. Se o cara além da ferramenta ainda tem que aprender o assunto, geralmente ele esquece ambos logo depois.

Ali no blog eu tenho um assunto definido, que eu conheço bastante bem. É meu hobby: eu me divirto e aprendo a usar as ferramentas. Sem falar que o público daquele blog é minúsculo, o que me impede de pagar um grande mico se sair errado. Quando dá certo, aplico o que aprendi aos blogs mais sérios e, mais adiante, quando aplico ao trabalho de verdade, já ganhei experiência.

Carrego no meu bolso um Blackberry, onde baixei um aplicativo chamado "TwitterBerry". De onde o usuário estiver, ele pode enviar suas atualizações. O teclado completo ajuda a ser mais rápido ao digitar.

Paul Bradshaw explica para que serve o Twitter:

    O Twitter é, fundamentalmente, um canal de comunicação - como o telefone, mas mais público. Como um blog, mas mais social. Como o e-mail, mas mais sucinto.

Ele também dá dicas de assunto:

    * Se você achou um artigo útil online, twite sobre ele - com um link (você pode usar serviços domo o tinyurl.com pra encurtar os links).

    * Se você publicou alguma coisa, twite sobre ela

    * Se estiver numa conferência ou evento, poste atualizações no Twitter - você pode até fazer isso com mensagens de texto

    * Se você leu algum tweet interessante de alguém, 'retwite' (RT, pra encurtar)

    * Se alguém fez uma pergunta, twite uma resposta útil (comece a mensagem com @ e o username - por exemplo, uma mensagem direcionada a mim começaria com @paulbradshaw)

Um comando do Twitter que o Bradshaw não menciona é o chiqueirinho (#). Ele serve para indicar palavras-chave. Por exemplo, quando o Roda Viva chama três twitteiros pra participar no estúdio, eles usam a palavra-chave #rodaviva. Então, todo mundo que posta usa essa mesma tag. Você pode acompanhar todos os usos dessa tag no Twemes ou no search do Twitter.

Voltando ao show do Deep Purple. Ontem, no Via Funchal, assisti ao show na coxia, então fiquei com os braços bem livres (com a exceção de uma eventual cerveja). Minha idéia original era twittar a ordem das músicas pra não esquecer. Quase como um bloquinho de notas, mas em tempo real. Mas nem só de ordem das músicas vive um show. Ainda mais se visto da coxia. Acabei twittando observações sobre o comportamento dos músicos ao redor do palco, também. Mais adiante quero fazer uma resenha do show, e isso me ajuda a não esquecer nada.

Mais ainda: os amigos que me seguem no Twitter acabaram "assistindo" ao show junto comigo. No próprio Twitter, confessavam uma ponta de inveja boa e até tiravam sarro: "@msoares já viu tantos shows do DP na vida que até dá tempo de twittar."

Outro amigo, fãzaço do Deep Purple, estava no Rio de Janeiro varando a madrugada sobre sua dissertação de mestrado. Neste ano, os mestres não tocaram lá. O Vitor Benvindo é leitor do Purpendicular quase desde seu início, há sete anos. Mesmo ele não estando lá, sentiu-se representado pela visão do fundo do palco.

Esse tipo de uso do Twitter não responde à (falsa) questão sobre se Twitter "é jornalismo" ou não. Mas certamente ajuda a entender melhor para que raios serve a ferramenta e pensar formas de usar isso jornalisticamente. Para cobrir uma coletiva, por exemplo. Um jogo de futebol. Ou um show, por que não?

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ah, censurinha de imprensa

Em dezembro do ano passado, a Gazeta Mercantil antecipou que a Embraer demitiria 4 mil funcionários. O repórter Julio Ottoboni inclusive obteve boletim interno onde a possibilidade era mencionada:

    No final de novembro, o presidente da companhia, Frederico Fleury Curado, divulgou boletim interno no qual alertava os funcionários sobre os efeitos do colapso financeiro internacional. "A verdade é que, já em 2009, estaremos sofrendo redução nas entregas de jatos", dizia em um dos trechos do comunicado. "Meus caros, como podemos constatar, a crise já está nos alcançando", revelava em tom preocupado o que seria um prenúncio de ações mais drásticas.

A matéria chegou a entrar no clipping do Ministério do Planejamento. E era verdade, como se vê todo dia no noticiário desde que as demissões foram anunciadas.

Em artigo no Observatório da Imprensa, indicado pela Cris Castro no blog da Ana Estela, Ottoboni conta o que a assessoria da Embraer fez contra ele a partir da publicação do furo.

    a reação da empresa, particularmente de seu presidente Frederico Curado e de alguns de seus vice-presidentes foi de extrema agressividade, chegando o dirigente máximo da companhia dizer em coletiva de imprensa, depois em rede nacional, que as informações publicadas pela Gazeta Mercantil eram "levianas, mentirosas e invenção da cabeça de alguns jornalistas".

    (...) No dia da publicação da matéria (11/12/2008) houve uma cerimônia de entrega de dois aviões para Air France e fui escalado para cobrir o evento. Já ao ingressar nas instalações da fábrica, em São José dos Campos (SP), fui recebido pela chefia da assessoria de imprensa, que sem o menor respeito tentou esconder a fúria sob a ironia cínica e vociferou na frente de outros colegas jornalistas: "O que você está fazendo aqui? Ninguém aqui quer te ver. Já não teve seus cinco minutinhos de fama?"

    (...) Com o passar dos dias fui retirado do mailing list da empresa, proibiram-me de entrar ou cobrir qualquer evento nos limites da companhia, deixei de ser atendido pela assessoria de imprensa tanto por telefone como por e-mail – e, para confirmar isso, eu enviava e-mails e telefonava para todos os jornalistas da assessoria, assim não haveria como me enganar ou a assessoria me desmentir.

    Não contentes com as privações a um profissional de imprensa em pleno exercício da profissão, a gerência de comunicação da Embraer e sua direção passaram a exigir minha demissão e a retratação em primeira página "das mentiras publicadas pelo jornal".

Claro que era mentira que a Embraer demitiria 4 mil funcionários. Foram demitidos outros 270 além deles. Eu, se fosse o repórter, publicava essa retificação em primeira página do dia seguinte ao anúncio das demissões, citando diretamente os pedidos de correção.

Existe uma situação que me incomoda no Brasil sempre que preciso fazer uma matéria sobre economia: as assessorias de imprensa se tornaram verdadeiras zagueiras treinadas pra repelir qualquer tentativa de publicar algo diferente do que seus clientes queiram voluntariamente dizer. No final do ano passado, só consegui marcar uma entrevista depois de fugir do meu padrão e ser ríspido com o assessor: "o que é que a sua empresa está tentando esconder ao negar entrevista? Trabalho escravo?"

As assessorias de imprensa são um mercado crescente, que emprega uma fatia cada vez maior dos bacharéis em jornalismo. Qualquer boteco quer contratar um jornalista pra falar bem dele. Mas, embora boa parte dos assessores de imprensa se digam jornalistas, há diferenças básicas entre jornalismo, compreendido aqui como a atividade de publicar informações de interesse público de preferência criticamente, e assessoria de imprensa, compreendida aqui como a atividade de mediar o contato da imprensa com informações sobre setores específicos.

Não se trata de "preconceito", como querem alguns, geralmente argumentando que os dois profissionais fizeram a mesma faculdade e que portanto é a mesma coisa. Trata-se de definição. São atividades diferentes. Ninguém procura um ortopedista pra tratar dor de estômago, embora o profissional necessário também tenha feito faculdade de medicina.

Complicado é observar que a atividade de assessoria de imprensa cada vez mais envolve práticas de censura. Também é complicado observar que cada vez mais essa atividade é influente no que sai publicado. Eu não me espantaria se eu fosse fazer uma pesquisa aprofundada sobre a raiz do jornalismo declaratório e visse que boa parte dele é alimentada pelas assessorias. Acharia até normal.

Da minha parte, eu evito ao máximo os ambientes onde os ah, censores andem. Assim como não é saudável misturar os conceitos, também não acho saudável compartilhar o mesmo ar. Ainda que o mesmo ar de debates.

Vejam que não estou falando de todos os assessores - apenas dos zagueiros, dos maus assessores, dos ah, censores. Não canso de dizer que já aprendi bastante com os bons. Todo o pouco que sei sobre lei eleitoral eu aprendi com a assessoria do TRE-SP em 2000, por exemplo.

(Se bem que o tempo decorrido desde o exemplo também possa depor contra minha simpatia pelos profissionais dessa área. Preciso arrumar outro exemplo, mas o povo não se ajuda.)

Por que a Wikipedia é como um banheiro público

Vi ontem que meu amigo Everton Alvarenga reagiu com alguma surpresa à minha comparação da Wikipedia com um banheiro público. ("Use à vontade, mas veja lá onde põe a mão", eu escrevi.)

Mantenho o paralelo e arrisco-me a desenvolvê-lo:

    1) Ambos os serviços têm utilidade e importância óbvias.

    2) Em ambos os serviços, você nunca sabe bem o que esperar de quem esteve lá antes.

    3) Na hora do maior aperto, ambos garantem o alívio.

    4) A qualidade do serviço depende do zelo de todos os usuários.

Na dúvida, lave bem as mãos depois de usar um banheiro público; quanto à Wikipedia, cheque as informações antes de citar. Nos melhores verbetes, o caminho para a checagem está bem referenciado. E cite a fonte original, não a Wikipedia. Ela é um meio, não um fim.

Se você tem tempo e conhecimento, edite a Wikipedia. Corrija erros que você notar. E, quando você for editar algum verbete, faça a melhor pontaria possível.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Estréia na MTV, hoje

Hoje, às 21h30, estréio uma coluna semanal sobre política no Notícias MTV.

Sempre fui completamente tosco com TV, então perdoem qualquer deslize.

Quem assistir, por favor, diga o que achou.

domingo, 1 de março de 2009

Alan Moore está gripado

Watchmen, o filme feito com base no gibi escrito nos anos 80 por Alan Moore, estréia na próxima sexta. A Panini está lançando por estes dias uma edição especialíssima da obra. Mas, como sói acontecer com outros filmes sobre seus gibis (muitos deles muito infiéis), Moore não vai assistir a este. Tampouco está interessado em ter seu nome associado a ele, ou mesmo a dar entrevistas sobre sua obra se o interesse nela vem do filme.

O Guardian tentou entrevistá-lo para um perfil. Não conseguiu. Recorreu, portanto, ao mesmo estratagema do Gay Talese para entrevistar o Frank Sinatra: entrevistou amigos, procurou entrevistas antigas, fuçou a história de sua vida. Vale a pena ler. Há detalhes ali que eu nunca havia lido a respeito do escritor.

E olha que acompanho sua obra desde um dia de fevereiro de 1987, quando minha mãe topou comprar um gibi que tinha o Batman na capa mas não no miolo. A última história daquela revista era um conto de terror do Monstro do Pântano, com base num desenho de Goya: "O sono da razão produz monstros". Li e reli e treli e li mais umas várias vezes aquela história, fascinado que estava com ela no auge dos meus 10 anos.

Mas Watchmen é muito melhor. Escrevi a respeito há alguns anos. Bom proveito.