sábado, 28 de fevereiro de 2009

Hotéis de guerra

O Global Post publicou uma série muito interessante, escrita pelo veterano HDS Greenway, sobre os hotéis que abrigaram os correspondentes em várias guerras, do Vietnã ao Iraque. Greenway começa citando a peça "A Quinta-Coluna", do Hemingway. A série em si é uma ótima leitura para o final de semana:


Fiz um especialmente para os leitores do Dicas um mapa que mostra onde fica cada um desses hotéis. Você pode se aproximar de cada um deles e ver a imagem de satélite de onde eles ficam.


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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Ainda dá tempo de se inscrever

Se você está no Rio, ainda tem tempo de se inscrever no curso "Oficina da Reportagem Investigativa", que eu e alguns colegas ministraremos na Facha. Ele começa no outro sábado, dia 7.

O mapa do desemprego

Fiz nos últimos dias um mapa das grandes demissões anunciadas no noticiário. A visualização abaixo foca principalmente a cidade de São Paulo, onde os dez pontos atualmente marcados representam 3.121 empregos eliminados desde janeiro em empresas com sede na cidade. Nem todas as vagas aí contabilizados eram em São Paulo. Onde as notícias não especificam onde foram feitas as demissões, o número é atribuído à sede da empresa. Se você clicar em "exibir mapa ampliado", vai ter acesso inclusive à lista completa de demissões incluídas.


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Pra fazer RSS de quem não tem

Conheci hoje o Page2RSS, que monitora em tempo real as atualizações de páginas que não têm feed de RSS. Já usei um serviço parecido antes, mas nunca recomendei porque não estou satisfeito - ele atualiza semanalmente, apenas, e eu sempre tenho a impressão de estar perdendo alguma coisa.

Não sei se funciona direito. Acabo de cadastrar para teste a página de atualizações do site da Deep Purple Appreciation Society, que não conseguiu ser captada pelo serviço que eu usava antes - mas dependo do mestre Simon Robinson publicar alguma atualização pra ver se funciona. Se funcionar, adotei. Se alguém aí testar e funcionar, dê um grito.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Caindo de maduro

O grande Pedro Valente sugere no seu Twitter:

    Alguém devia varrer notícias por "O acidente ocorreu no km X da Rodovia Y" e pôr isso num mapa. A concentração exporia as regiões + críticas

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Utilidade versus privacidade

Estou lendo, finalmente, o livro "Super Crunchers", do economista Ian Ayres. O livro busca mostrar como a análise de grandes massas de dados vem sendo usada na tomada de decisões importantes. No primeiro capítulo, "Quem está pensando por você?", Ayres discorre um pouco sobre os sistemas eletrônicos que coletam dados de usuários de sites para fazer-lhes recomendações. Então, ele dá uma abordagem interessante à questão da privacidade que apontei ontem no post sobre os mapas digitais:

    Podemos ter livre-arbítrio, mas a análise de dados pode permitir que as empresas emulem um tipo de onisciência agregada. Na verdade, por causa da superanálise, as empresas às vezes podem ter a capacidade de fazer previsões mais precisas sobre como você irá se comportar do que você mesmo.

    Mas, em vez de tentarmos proibir a análise estatística, poderíamos reagir a isso, usando essa vantagem. Por exemplo, exigindo que os consumidores saibam que ela está acontecendo. O surgimento desses modelos de previsão sugere a possibilidade de um novo tipo de obrigação de revelar esse funcionamento. Normalmente, os governos só exigem que as empresas mostrem a um consumidor seus produtos ou serviços. Mas agora as empresas sabem mais do que os consumidores do que eles mesmos. Poderíamos exigir que as empresas eduquem os consumidores sobre si mesmos.

Ou seja: poderiam mostrar aos consumidores como suas características armazenadas no banco de dados interferem no atendimento e preços oferecidos. Proibir toda e qualquer coleta de dados barraria muita coisa interessante. Mas deixar o cliente saber o que é feito de seus dados parece honesto o bastante. A questão é isso acontecer.

Uma coisa rudimentar que a Amazon faz, por exemplo, é me oferecer produtos com base em compras anteriores ou no interesse que demonstrei por outros produtos. Por exemplo, ela me oferece o livro "The Devil We Know: Dealing with the New Iranian Superpower", sobre o qual eu nunca ouvi falar antes, explicando que a indicação se deve ao fato de eu ter comprado o livro que o Bob Woodward lançou no ano passado, "The War Within". Também me oferece um glorioso e obscuro show do Deep Purple, lançado há alguns anos lá fora no CD "Live in Aachen 1970", porque eu informei ter basicamente tudo que eles já lançaram oficialmente.

Isso não influi nos preços que eles me cobram, ou pelo menos aparentemente ainda não. (Talvez por isso eles informem o motivo da indicação.) Mas Ayres dá o exemplo de uma locadora de carros que, ao cobrar uma taxa prévia pela gasolina, podia informar ao cliente que a cobrança se deve ao fato de outros com seu perfil costumarem deixar apenas um terço do tanque cheio ao devolver o carro.

Na Rússia, oito em cada dez sites só copiam e colam

O Editors Weblog publica dados de um estudo segundo o qual 80% dos sites de notícias na Rússia faz apenas o trabalho de copiar e colar notícias dos outros. Desses, apenas 8% linkavam para o conteúdo original.

Embora o estudo diga que apenas dois em cada 10 sites publicam conteúdo original, a editora do site que encomendou o estudo reconheceu que seu próprio site chupa conteúdo alheio sem atribuir com link.

No Brasil, a julgar pela mais falha das métricas - a mera observação -, a coisa não vai muito longe, não. Ainda há poucos dias publiquei aqui no Dicas os links das matérias de Folha, Globo e Estadão, copiadas e coladas da BBC Brasil, sobre a entrevista em que o Tarso Genro cometeu uma gafe trilíngue. E os três sites que chuparam a matéria da BBC, com o cuidado de atribuí-la corretamente, são de empresas que também produzem seu próprio conteúdo.

Alguém conhece algum estudo semelhante a esse da Rússia sobre sites brasileiros?

Foi ou não foi?

A garota paranaense que foi baleada e teve o namorado assassinado, possivelmente pelo irmão de um policial que está participando da investigação do caso, teve alta do hospital.

Todas as notícias a respeito já deixaram de citar "estupro". Até ser revelado que o suspeito preso era irmão de um policial, todas diziam que a garota teria sido estuprada. Depois de a polícia dizer que não foi estupro, só atentado violento ao pudor, todo mundo passou a dizer que ela foi "molestada".

Só eu acho isso imensamente estranho? A vítima passou 20 dias no hospital antes da mudança de versão e mais alguns dias depois. Deve ter passado por vários exames ao longo desse tempo. Minhas dúvidas:

    1) Alguma fonte do hospital alguma vez afirmou que ela fora estuprada? De onde veio a informação original?

    2) Se veio do hospital, alguma fonte do hospital alguma vez corroborou a mudança de versão da polícia?

    3) Se ninguém no hospital corroborou a versão da polícia, o que os médicos dizem a respeito? E o que diz a família da moça?

A história já era triste. Agora, também está parecendo mal-contada. E pode ser que eu esteja acompanhando superficialmente o caso, mas não vi ainda nenhuma matéria tentando juntar as peças soltas.

Ou houve e eu perdi?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Por que usar mais mapas

Várias das dicas que passei aqui nos últimos tempos foram relacionadas a mapas, especialmente de como fazê-los. Estou fascinado pelos mapas há alguns meses, como forma de organizar informação. Hoje, a propósito do crescente uso de mapas em telefones celulares, o New York Times explica o porquê dessa importância crescente:

    Já faz 25 anos que o desktop, com seus arquivos e pastas, foi apresentado como forma de pensar no que acontece dentro de um computador pessoal. A World Wide Web trouxe outras formas de imaginar o fluxo de dados. Com o predomínio do telefone celular, uma nova metáfora está emergindo sobre como organizamos, encontramos e usamos informações. Nova até ali. Ela é tão antiga quanto a própria humanidade. Essa metáfora é o mapa.

    "O mapa é subjacente à percepção humana", disse Richard Saul Wurman, um designer gráfico que foi pioneiro no uso de mapas como uma forma generalizada de buscar informações de todo tipo antes do surgimento do mundo online.

    O domínio dessa metáfora vai mudar a forma como nos comportamos, como pensamos e como encontramos nosso caminho em novas vizinhanças.

    (...) “Eu sempre disse que a próxima interface seria o Quake,” disse Steve Capps, oneum dos designers da interface original do Macintosh, referindo-se ao popular videogame. “Quanto tempo vai levar até que você possa sair do metrô e levantar sua tela pra saber melhor o que está vendo no mundo físico?”

    Cada vez mais, os telefones permitirão que os usuários vejam uma imagem do que têm em torno de si. Você pode estar cercado de arranha-céus e obter um mapa de referência imediata mostrando para onde você vai e as características da paisagem, junto com seu progresso em tempo real.

    (...) A interface do mapa parece até ter uma base biológica, como sugerido por novos estudos cerebrais mostrando como o mundo é representado em mapas mentais.

    “Os humanos evoluíram com fabulosas capacidades navegacionais em seus cérebros, de um ponto de vista evolucionário,” disse Eric Schmidt, principal executivo do Google. Ele argumenta que a correlação entre o mapa no telefone e o mapa interno em sua cabeça é uma forma natural de navegar por todo tipo de informação.

Mas isso não ocorre de maneira inocente e nem ocorrerá completamente de graça. Fundamentalmente, isso ocorre porque tem gente querendo ganhar dinheiro com isso, como bem lembra o mesmo texto:

    Você pode usar seu telefone pra encontrar amigos e restaurantes, mas alguém poderá usar seu telefone para encontrar você e descobrir coisas sobre você.

    (...) Parte do que impulsiona a emergência de serviços baseados em mapas é o vasto potencial de marketing que há em analisar os padrões de deslocamento dos consumidores. Por exemplo, agora é possível para os marqueteiros identificar usuários que estão querendo comprar carros porque já foram a diversas concessionárias.

    “Quando eu vou do ponto A ao ponto B a pé, é porque existe algo de muito valor lá,” disse Tony Jebara, cientista da computação na Columbia University e co-fundador da Sense Networks.

Junte a utilidade potencial para o usuário organizar suas informações à utilidade potencial para as empresas ganharem dinheiro e o que temos é uma forte questão de privacidade.

    Conforme pesquisadores e empresas aprendem a usar toda a informação sobre a localização de um usuário que os telefones podem fornecer, novas questões de privacidade surgirão.

    (...) Um mundo móvel completamente baseado em mapas e consciente da localização pressupõe repensar noções básicas de privacidade. Para uma geração mais velha, expor sua precisa localização o tempo inteiro para um exército de 'pequenos irmãos' para fins de marketing e publicidade é invasão de privacidade. (...) Por outro lado, existe uma geração de usuários de smartphones com cerca de 20 anos de idade que cresceu compartilhando os detalhes mais íntimos de suas vidas no MySpace e no Facebook. Eles podem ter um ponto de vista diferente.

É importante levar em conta essas questões comerciais e de privacidade. Não no sentido primário de "ser contra" ou "ser a favor"; a questão é como equalizá-las dentro de formas jornalísticas de mapear a informação que produzimos.

Em parte por conta de uma demanda que deve crescer por parte dos usuários. Em parte por uma oferta que tem tudo pra crescer em termos de receita com anúncios.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Terrorismo no Brasil?

O National Counterterrorism Center, uma entidade americana que estuda casos de terrorismo, colocou na internet um banco de dados mundial com incidentes violentos ocorridos desde 2004.

cinco casos brasileiros, incluindo o assassinato da freira Dorothy Stang, ameaças de bomba no metrô de São Paulo e 15 mortes de civis num ataque em Rondônia.

São casos diferentes; se o assassinato da Dorothy Stang conta, outras milhares de mortes por motivos político-econômicos deveriam contar. Sem desmerecer o caso da freira. Os ataques do PCC não estão lá, nem as mortes de civis sem antecedentes criminais nos dias que se seguiram. Se a ameaça de bomba não consumada no metrô de São Paulo conta, quantas outras contarão também?

De qualquer forma, vale a pena ler a metodologia antes de usar. Seguindo essa metodologia, alguém mais ligado poderia fazer um banco de dados brasileiro de ataques. Renderia um material interessante, não?

O Personal Democracy Forum lembra que você pode baixar os dados, em formato XML, para criar visualizações.

Tarso caiu do cavalo em três línguas

Ontem, o jornal espanhol El Pais publicou uma entrevista com o Tarso Genro com este título bombástico:

"El gran obstáculo de Dilma Rousseff es el apoyo de Lula"

A aspa é esta:

    Es una buena candidata, tiene buena capacidad de gestión, pero, sobre todo, tiene el obstáculo más grande que pueda poseer alguien que opte a la presidencia: el apoyo del presidente Lula. Creo que le va a afectar mucho. Además, la oposición tiene constancia de eso. Ninguno de los candidatos que se presentan dicen que lo hacen contra Lula, sino que lo hacen para gobernar post-Lula. Es una señal de la importancia que tiene el presidente.

Faz sentido. Concorrer com o apoio de um presidente tão popular, apesar das óbvias vantagens políticas, é mais ou menos o mesmo que pintar um alvo político na testa. Mas o termo "obstáculo", ao repercutir por aqui, soou pesado. A BBC Brasil resenhou o texto e todos os serviços online fizeram controlcê-controlvê:

Apoio de Lula é 'obstáculo' à candidatura de Dilma, diz Tarso a 'El País' (O Globo)

Apoio de Lula é "obstáculo" à candidatura de Dilma, diz Tarso a "El País" (Folha Online)

Apoio de Lula é 'obstáculo' à candidatura de Dilma, diz Tarso a 'El País' (Estadão.com)

Parêntese: eu, pessoalmente, acho um saco esse vezo do churnalismo de todo mundo publicar exatamente os mesmos textos copiados das mesmíssimas fontes às quais qualquer um tem acesso diretamente e de graça. E você?

Mas voltemos à forma como o Tarso caiu do cavalo. Quando a coisa começou a repercutir, o Ministério da Justiça lançou uma nota explicando o erro:

    A palavra handicap - utilizada pelo ministro com a conotação de "vantagem" - foi equivocadamente interpretada pelo repórter espanhol como "obstáculo", o que gerou a manchete "O grande obstáculo de Dilma Roussef é o apoio de Lula".

Na mensagem enviada ao El Pais, Tarso ainda afirma: "Utilizei a palavra "handicap", que no Brasil tem uma conotação positiva."

Vá lá: substituindo a palavra, a aspa continua fazendo sentido, embora fique bem menos sexy.

Pode parecer um absurdo que uma vantagem vire 180 graus e vire obstáculo, mas aí vem o cavalo de onde o Tarso caiu.

Em inglês, "handicap" significa "limitar por obstáculos". Mas o termo "handicap" é usado também no turfe para indicar a vantagem que um cavalo tem em relação aos outros. Cavalos mais fortes recebem um peso extra para correr em condições de igualdade com os mais fracos. Por conta disso, os fãs de turfe transformaram peso em vantagem.

Não é incomum que a falta de jeito em várias línguas leve a essas inversões. Eu já vi um profissional elogiar a qualidade ímpar do trabalho de outro dizendo que "ele é uma commodity". Eu, pessoalmente, não gostaria nem por elogio de ser comparado com produtos indiferenciados entre si, cujo valor está na quantidade. Mas entendo o que um analfabeto bilíngüe quer dizer com isso, embora ache graça.

Tarso caiu do cavalo, então, numa entrevista concedida possivelmente em portunhol selvagem, com o uso de termos arcanos e maltraduzidos de esportes fora de moda. Não é qualquer um que, com uma só palavra, consegue cometer uma gafe trilíngüe e ainda causar um estremecimento político.

Convenhamos: mereceu toda a incomodação que deve ter tido durante o dia, né?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Refazendo o percurso do voo que caiu


Jeral Poskey, um consultor de transporte, criou um vídeo interessantíssimo com recursos que estavam disponíveis para qualquer um.

Há um mês, um Airbus A320 fez um pouso forçado no Rio Hudson, em Nova York. A perícia do piloto salvou os 155 passageiros. Em cerca de 15 dias, a Federal Aviation Authority liberou as gravações e transcrições do acidente.

Poskey pegou a rota do avião, analisou, corrigiu e recriou seu trajeto no Google Earth, tendo assim uma vista aérea dessa rota. Ele sobrepôs a gravação às imagens e postou as instruções para você repetir em casa. Esse tipo de sobreposição de dados é o que se chama "mashup".

O Google Maps Mania gravou um vídeo:


Flight 1549 Reenactment from Keir Clarke on Vimeo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Método chutatístico

No Jornal Hoje, agora há pouco, perguntaram a um sujeito de um bloco carnavalesco do Rio de Janeiro como eles calculam quantas pessoas seguem o bloco. A aspa, irretocável:

    "Rua não tem roleta! A gente olha por cima e chuta um número"

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A brasileira na Suíça e as aspas na boca da fonte

Sergio Leo relata uma entrevista coletiva que presenciou com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sobre o caso da brasileira que afirma ter sido espancada por skinheads na Suíça. Segundo o Sergio, Amorim evitou ao máximo dar uma opinião mais forte sobre o caso porque a situação ainda era muito incerta, mas os colegas queriam algo peremptório pra publicar:

    Amorim chegou a irritar-se com a insistência dos repórteres. Tentou pelo menos duas vezes acabar com a entrevista, dizendo que não havia nada a dizer enquanto não terminassem as investigações.

    À primeira "É xenofobia?" ele respondeu que a polícia estava investigando, que o governo pediu explicações, queria saber dos culpados. Perguntaram umas três vezes a ele se era ou não xenofobia. E indagaram se o governo iria acionar a Comsisão de Direitos Humanos _ ao que ele respondeu que era prematuro, que esperava seriedade da investigação policial.

    "Não podemos fazer nenhum pré-julgamento, mas há uma aparência evidente de xenofobia, o que é uma coisa preocupante", disse ele, após a inistência dos repórteres. E quando insisitiam em saber sobre a ONU: "Não adianta aventar hipótese agora porque não sei qual a direção que as investigações vão tomar. É preciso que as autoridades suíças façam a investigação. Temos confiança de que farão, temos confiança de que manterão a transparência e temos confiança de que haverá punição adequada porque creio que a Suíça não tem interesse em manter uma imagem negativa".

    Já espectador de episíodios semelhantes, saí do Itamaraty imaginando que o Amorim ia levar pedra por não ter sido enfático o suficiente na condenação dos agressores da moça.

    No dia seguinte, os jornais traziam o Amorim em manchetes de página falandode "xenofobia". E, quando a história começou a se revelar mais complicada do que à primeira vista, em todo canto começou a pipocar crítica contra a "precipitação" do Itamaraty. Até atribuiram a ele a referência à Comissão de Direitos Humanos, que saiu dos repórteres e ele se recusou obstinadamente em confirmar.

    Estou defendendo o Amorim? Não. Estou condenando um factóide que me atrapalha a discussão quando esse pessoal do governo vem com a tese estúpida de conspiração da midia. Episódios como esse dão argumentos para que autoridades digam que são cobrados por coisas que não disseram e atos que não praticaram. Antes que mais algum amigo meu saia por aí repetindo uma interpretação equivocada, que pelo menos saibam como foi esse negócio.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Ticiano, os Tories e a conveniência da Wikipedia


Outro dia escrevi que o sistema da Wikipedia é eficiente para erros e manipulações flagrantes, mas coisas mais sofisticadas passam batido. Quanto mais leio a respeito, mais firmo essa convicção. O Financial Times de hoje dá uma boa definição para como se deve lê-la, na frase que negritei:

    Nunca podendo ser acusado de excesso de modéstia, durante sua estadia em Davos, Gordon Brown comparou-se a Ticiano, o pintor veneziano, quando ele tinha 90 anos de idade. O paralelo? Com aquela idade, o mestre do século 16 já estava estabelecido há muito tempo, mas ainda sentia estar aprendendo sua arte. David Cameron, o líder do partido conservador britânico, tentou marcar um ponto bobo nesta semana ao afirmar que Brown poderia estar como Ticiano aos 90 – porque o mestre havia morrido aos 86 anos.

    Tudo o que se sabe ao certo é que Ticiano morreu em 1576. Sua data de nascimento é deconhecida. Ele poderia ter mais ou menos de 90 anos quando finalmente bateu as aquarelas. Mas um dos apparatchiks de Cameron decidiu resolver o debate.

    Ele foi à Wikipedia – a enciclopédia online que qualquer um pode alterar - e editou as estatísticas vitais de Ticiano. Ao invés de mudar sua data de nascimento - a questão contenciosa -, ele o matou alguns anos mais cedo – na verdade, antes de ele pintar uma última e dramática Pietà.

    Muitos, incluindo os Tories (conservadores), já foram entusiastas da Wikipedia no passado – e não apenas por sua conveniência para corrigir os pequenos erros da história. Desde que os leitores tenham consciência das limitações da Wikipedia, ela é uma ferramenta útil. Certamente não há lugar melhor pra encontrar listas de Cavaleiros Jedi, que já foram um dos verbetes mais longos e tediosos do site.

    The real problem is far broader. Wiki-enthusiasts cite the “wisdom of crowds” as a reason for the accuracy of the encyclopedia. They claim that, just as a market finds prices for goods based on our differing opinions of what they are worth, so a crowd can establish what truth is. But whereas prices are reliant on opinions and values, facts are either true or false.

    Qualquer tentativa de transformar a opinião da manada em teste da verdade é perniciosa. O fato de uma idéia ter aceitação popular não a torna verdadeira. A Terra não parou quando Galileu caiu em desgraça, e a teoria da evolução não foi refutada pela fé dos crentes. A sabedoria das multidões pode no máximo ser convencional.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Palestras na Folha, aulas no Rio

O blog Novo em Folha, da Ana Estela, publicou ontem um relato, escrito pela Cristina Moreno de Castro, sobre a primeira palestra que dei na semana de seleção dos trainees. Vale a pena dar uma olhada. A segunda aula, de quinta pela manhã, está relatada aqui.

Se você está no Rio e estiver a fim de afiar suas garras como repórter, não perca o curso Oficina da Reportagem, que ocorre na Facha entre março e julho. Eu sou um dos coordenadores e instrutores, mas como moro em São Paulo estarei lá só em algumas das aulas.

Caso sua escola ou Redação esteja interessada em algum curso ou palestra deste fuçador, entre em contato pelo email marcelo@oficinadareportagem.com

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Retratos falados

Na sexta-feira, a polícia civil do RS divulgou o retrato falado do cidadão que roubou o carro do prefeito de Porto Alegre, José Fogaça. É este aqui, autografado e tudo.



Hoje, a polícia civil do PR divulgou o retrato falado do cidadão que matou um guri e baleou e depois estuprou a namorada dele. É este aqui, sem autógrafo.



Responda depressa: qual deles ajuda mais a reconhecer o criminoso se você o vir na rua? Você dispensa o autógrafo do artista em prol de uma boa identificação?

E olha que não deve ser por falta de recursos. O site Papiloscopistas.net traz um artigo/aviso sobre o investimento da Secretaria Nacional de Segurança Pública em softwares para montar retratos falados e treinamento para os papiloscopistas os fazerem melhor.

Será que essa tecnologia ainda não chegou na terra do churrasco, bom chimarrão, fandango, trago e mulher? Não acredito. Acho que tem pauta aí.

Na dúvida, brinque de fazer retratos falados com o FlashFace. É de graça e parece mais eficiente que o da polícia civil gaúcha. Pelo menos o meu feito por mim mesmo ficou parecido:


(Claro que, se a Gazeta Mercantil descobre isto, pode rolar corte de custos. Então, não espalhe.)

Não tem a ver exatamente com o assunto, mas vocês já testaram o Obamicon? Você se cadastra, sobe uma foto e mexe nas cores pra ficar que nem a mais famosa foto do Obama. Olha esta que eu fiz do Steve Morse, guitarrista do Deep Purple:



Ou esta, com Ian Gillan e Ritchie Blackmore:

Pra me gabar um pouquinho

Estou no mesmo índice que o Carl Bernstein. Que tal? OK, com uma forçadinha de barra é mais ou menos isso.

O Committee to Protect Journalists (CPJ), do qual eu era até recentemente o consultor no Brasil para apurar casos de ataques contra a liberdade de imprensa, acaba de publicar o relatório Attacks on the Press in 2008.

O prefácio é escrito pelo veterano ex-repórter do Washington Post. Eu fiz o capítulo sobre o Brasil. No vídeo abaixo, Bernstein discute a auto-censura na imprensa.


Attacks on the Press 2008: Carl Bernstein fala da auto-censura na imprensa postado por Meredith Megaw no Vimeo

A lista completa dos créditos está aqui.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Localizando as vítimas de Madoff

O blog do National Center for Business Journalism conta como a lista dos clientes do mago das finanças Bernard Madoff, especializado em truques de desaparição, foi recebida nos EUA, num jornal de médio porte com um repórter ligado:

    "Quando John Gittelsohn, repórter de economia do Orange County Register, ouviu falar no documento, ele sabia que era a oportunidade pela qual esperava. Desde que estourou o escândalo Madoff, o veterano repórter de economia vinha tentando entender como a história afetava a comunidade que cobria.

    Dentro das 162 páginas, ele encontrou 33 contas do Orange County, e esta cobertura mais tarde levou a conversas com moradores da área que ele cobria e que haviam confiado seu dinheiro a Madoff.

    Uma matéria no website do Register apresentou aos leitores Martin Miller, um morador de 96 anos do Orange County que perdeu US$ 3,5 milhões. NO final da matéria, os leitores também tiveram a chance de abrir um PDF da lista de investidores de Madoff.

    “Essa é uma daquelas coisas que qualquer um poderia fazer,” disse Gittelsohn. “Nunca se sabe quem vai aparecer na lista, talvez seja uma obra de caridade local, ou um cidadão proeminente ou um grupo de pessoas vivendo numa comunidade de aposentados.”

Logo na página 7, para os repórteres brasileiros que tiveram a curiosidade, estava Anna Maria Assumpção, que tem dois registros na lista. Um desses registros está num endereço brasileiro - em São Paulo, a duas quadras da Praça Panamericana.

A revista Época foi o único meio de comunicação que identifiquei ter ido atrás dela:

    ÉPOCA tentou, sem sucesso, entrar em contato com Anna Maria ao longo desta quinta-feira (5). Seu telefone caía apenas na caixa postal e, em sua casa, uma voz feminina rechaçou a tentativa de entrevista feita pela reportagem. Segundo o documento, ela reside no Alto de Pinheiros, bairro da zona Oeste de São Paulo. Anna Maria é mencionada duas vezes na lista. Na segunda menção, seu endereço registrado fica em Nova York, nos Estados Unidos.

(Verdade seja dita, o Jornal do Brasil também telefonou, sem sucesso. Mas não bateu na porta.)

Há diferenças culturais importantes entre o jornalismo brasileiro e o americano. Tanto da parte dos repórteres quanto dos personagens, como se vê. Na questão do que se faz com a informação online, também. Por aqui, a Época foi a única a dar o link para a lista - a postada no site do Guardian, que foi de onde eu a baixei. O New York Times, que possivelmente é lido por boa parte das vítimas de Madoff, transformou o documento num banco de dados, no mesmo dia.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Madoff, o spread e duas pautas de presente

A Folha Online usa uma matéria da agência espanhola EFE para contar quem está na lista dos investidores que perderam dinheiro com o esquema do financista picareta Bernard Madoff, aquele mago das finanças que fez um truque de desaparecimento com bilhões de dólares. O Estadão deu uma matéria própria. Nenhum dos dois, porém, dá o link para a íntegra do documento.

Possivelmente, quem baixou a matéria também não se deu ao trabalho de procurar o documento. Ou, tendo procurado, sequer abriu pra ver se tinha alguma coisa localmente interessante. Ou, tendo aberto, deixou pra publicar depois. Ou não achou, sei lá.

Eu li a notícia antes no site de um jornal inglês, hoje de manhã. Lá, nesse site, tinha link para o documento. Baixei e procurei pela palavra "Brazil". Tinha uma menção a uma investidora brasileira, com o endereço de sua casa e tudo. Ela mora em São Paulo. Era a única brasileira, aparentemente, que pôs dinheiro no esquema individualmente e não por meio de fundos.

Não, desta vez eu não vou dar o link, só de pirraça. A pauta é boa demais e eu estou acostumando vocês muito mal. Vocês que procurem (hehehe). Mas dou uma dica mais completa de outra pauta relacionada que me está coçando na cabeça. Sim, é mais uma Numeralha.

O Santander foi o banco que mais perdeu dinheiro com o Madoff, certo? E também foi o banco que elogiou o Madoff em um relatório antes do mico, certo? E também é o banco que ofereceu compensação aos seus clientes de mais alto perfil que perderam dinheiro com o golpe, certo?

Pois hoje o Banco Central publicou a lista dos bancos que cobram os mais altos juros mensais. O Santander é o terceiro mais careiro, depois do HSBC e do Banco Schahin. Ele cobra em média 9,90% por mês no cheque especial.

Isso, em termos de juros compostos, é o seguinte: num mês de aperto, você fica devendo R$ 100 no cheque especial. O banco segura o rojão mas vai cobrar juros mês a mês. Digamos que você fica devendo esses 100 e não mexe neles, sem tomar mais dinheiro e sem conseguir saldar a dívida. No primeiro mês, a conta fica em R$ 109,90. No segundo, incidem 9,9% sobre os R$ 109,90 do mês anterior. E assim por diante, sempre incidindo a taxa sobre o saldo do mês anterior.

Em um ano, se deixar assim, os juros de 9,90% ao mês fazem sua dívida de R$ 100 virar R$ 175,20. Ou impressionantes 75,2% ao ano.

O Banco Central tem na internet uma calculadora de prestações. Preencha três valores (como principal, juros e prazo) e ele vai dar a prestação mensal. Multiplique a prestação mensal pelo prazo e você tem o valor final. Outro dia ensino a calcular percentagem.

Mas por que cresce tanto?

O juro dos bancos é alto por causa do spread bancário - a diferença entre a taxa oficial que o banco paga ao Banco Central (12,75% ao ano) e a taxa que o banco cobra dos clientes (os 75,2% ao ano, no caso do Santander). O spread é calculado pelo banco basicamente levando em conta o risco que ele avalia que terá para recuperar o dinheiro que te emprestou. Se o banco tem medo de que vá aumentar o desemprego, e com ele a inadimplência, ele aumenta o spread. Mas ele também embute aí outros custos operacionais seus. Nunca é claro o que entra. Vale a pena ler esta notícia da Folha Online sobre o que a Febraban fala a respeito do spread.

Mas então, voltando ao Madoff. Até que ponto o prejuízo com a grana alta apostada na pirâmide do picareta não aumenta o spread que engorda os juros cobrados pelo Santander do cara comum que fica pendurado no cheque especial? E quem compensa esse sujeito?

Eu adoraria ler essa matéria.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Não é questão de opinião

O Globo Online traz uma notícia a respeito do novo corregedor da Câmara dos Deputados com este título:

Edmar Moreira foi o 'absolvente-geral' dos mensaleiros, diz candidato derrotado para corregedoria

A declaração que embasa o título, do deputado Vic Pires Franco (DEM-PA), é esta:

    "O Edmar foi o amigão do mensalão. O PT, agora, agradeceu e pagou a conta, garantindo sua vitória contra mim. Juntou a fome com a vontade de comer. Diria que ele foi o absolvente-geral dos mensaleiros."

Aspa anotada, aspa publicada. Mas será que é suficiente? Ele faz afirmações aí que vão além de uma questão de opinião. Ou ele foi "absolvente" ou não foi. Ou fez acerto ou não fez. Esse caráter de diz-que-diz do noticiário de política me irrita um tanto. Acho que muito disso pode ser reforçado com um pouco de checagem.

É possível checar qual foi mesmo o papel do homem escolhido como corregedor da Câmara no escândalo do Mensalão. Existem várias formas de fazer isso. A primeira é pelo próprio noticiário.

A ONG Transparência Brasil tem um banco de dados chamado Deu no Jornal, que arquiva desde 2004 o noticiário sobre corrupção e controle publicado em mais de 50 jornais de todo o Brasil. Coordenei esse serviço por pouco mais de um ano, em 2006 e 2007. Ele tem um mecanismo de busca, que pode ser acessado aqui. Você pode escolher o caso, o período e as palavras-chave. Pesquisei as menções a ele no noticiário sobre o escândalo do Mensalão.

A mais recente que aparece é uma nota do Painel da Folha, publicada ontem:

    Ele apoiou a absolvição de João Paulo Cunha (PT-SP), Wanderval santos (PR-SP), Pedro Henry (PP-MT), Professor Luizinho (PT-SP) e Roberto Brant (DEM-MG). Moreira abandonou o conselho depois que foi derrubado seu relatório favorável a José Mentor (PT-SP).

Todo o noticiário da época dessas absolvições, e as reações causadas na época, está no Deu no Jornal.

Uma fonte melhor é a documental. Você pode ler as notas taquigráficas dos julgamentos no Conselho de Ética, no site da Câmara.

Mas aí tem mais um detalhe. Uma coisa é confirmar que o sujeito realmente recomendou a absolvição dos deputados. Isso a gente já tem como checar nos elementos acima. Outra coisa, bem mais difícil, é confirmar que isso se trata de um acerto político. Basicamente, isso é difícil porque essas coisas acontecem fora da vista do eleitor.

Mas valeria a pena tentar confirmar a acusação com outras fontes. Que podem ou não ter ouvido algo a respeito. Quem sabe no próprio partido do Edmar Moreira, o Democratas, que faz forte oposição ao governo.

O que me deixa desanimado é ver afirmações de fato tratadas como questões de opinião. Porque quem tem um balão de ensaio a plantar sabe que pode dizer o que quiser que a estenografia funciona que é uma maravilha.

Leia o artigo "Sombras da praga", que escrevi em 2006 para o blog do projeto Deu no Jornal a respeito de algo semelhante e mais complicado.

Lembram do tal Freud Godoy, do escândalo do Dossiê Sanguessuga? Pois, no dia da aparição dele no noticiário, um deputado subiu ao plenário fazendo várias afirmações sobre ele - incluindo a de que tinha sido mencionado em um depoimento da CPI do mensalão e a de que era investigado pelo assassinato do Celso Daniel.

Ambas as declarações eram verificáveis. Eu não encontrei menção sequer ao pai da psicanálise nas notas taquigráficas do depoimento citado na CPI do Mensalão. A Folha apurou com a polícia de Santo André e eles disseram não haver menção ao personagem naquele inquérito. Mas a declaração saiu com destaque e sem checagem no Estadão.

Sei lá se ele era picareta ou não. Mas no depoimento ele não foi citado e nem a polícia estava atrás dele por aquele caso.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Uso inteligente do Google Maps no jornalismo online

O Estadão começou, possivelmente já há algum tempo, a integrar o Google Maps a algumas matérias. Veja esta aqui, sobre os PMs que ficaram de guarda na favela de Paraisópolis depois do confronto de ontem.

Na página, entre dois parágrafos, ele ficou com esta cara aqui:


Por que é um uso inteligente? Simples: além de mostrar no satélite onde ocorreu o confronto, o leitor que não sabe exatamente onde fica Paraisópolis pode usar a régua lateral para afastar o ponto e ver perto do que é que fica. Infinitamente melhor do que publicar um mapa estático igual ao que se publicaria na versão impressa.

Como o online tem mais possibilidades do que o impresso, repare que a matéria também remete a vídeos do confronto com a PM e a uma galeria de fotos. As três possibilidades acrescentam camadas de informação ao que é publicado na versão impressa.

Pra mim, essa - e não a rapidez - é a principal característica vantajosa do meio online, quando usada de maneira inteligente. Reduzir o jornalismo online ao tempo real e ao churnalismo, sem usar o potencial de aprofundamento da informação, me parece perda de tempo e de dinheiro.

    BANCO DE IDÉIAS: Por que não fazer um ponto no mapa para cada matéria publicada, mostrando onde ela se desenrola, e manter uma seção fixa para mostrar os diferentes pontos do mundo que foram notícia ao longo do dia?

Na dúvida, a culpa será sua

Ontem, em meio ao maior espetáculo de auto-referência da política brasileira - a eleição da Presidência da Câmara -, um jornalista tornou-se um conveniente bode expiatório na hora de um dos nossos dignos representantes fazer média com outro. Da Agência Câmara:

    O deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS) cobrou do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), candidato à Presidência da Câmara, uma afirmação durante seu discurso em plenário de que Padilha teria feito no Rio Grande do Sul uma ameaça aos deputados do bloco de 14 partidos que não votassem em Michel Temer (PMDB-SP), acusando-os de traidores.

    Na tribuna, Eliseu Padilha exigiu que Aldo revelasse quando e para que jornalista ele teria dado tal declaração, sob pena de processá-lo.

    Aldo respondeu que a notícia foi publicada no jornal O Sul, no último dia 30 de janeiro, e que o autor da matéria foi o repórter Flávio Pereira. "Os outros candidatos, que não o Temer, fazem suas campanhas baseados na traição, o que é uma degeneração do processo", teria dito Padilha ao repórter.

    Aldo afirmou ainda que, se houve um erro, não pode ser atribuído a quem leu a notícia, mas a quem a publicou. Ele disse também que não teve a intenção de manchar a reputação do deputado Eliseu Padilha.

Conhecendo um pouco como funciona a economia da imprensa gaúcha, tenho quase certeza de que o repórter não gravou a declaração. Não tendo gravado, infelizmente, fica o dito pelo não dito. Em Brasília, tudo tranqüilo. Em Porto Alegre, eu imagino como estava o fígado desse repórter ontem.

De concreto, aparentemente, a única coisa que tinha na matéria era o fato de o Padilha ter dado aquela aspa mais forte, depois negada. Não li a matéria, mas acho que se tivesse detalhes sobre como são as "campanhas baseadas na traição" poderia ser mais difícil o Padilha negar. Mas aí depende mais de apuração do que de estenografia. E possivelmente de mais tempo e fontes que falassem, coisa de que talvez o repórter não dispusesse no momento.

Algumas questões para discutir:

1) Você grava tudo o que apura? Em fita ou digital? Transcreve tudo ou só o que usa?

2) Como arquiva o que grava? Tem um sistema fácil para localizar depois?

3) Qual é sua opinião sobre a cobertura (especialmente política) centrada na coleta de aspas, o chamado jornalismo declaratório?