sexta-feira, 2 de outubro de 2009

E quando os números são fraudados?

Ando trabalhando tanto que este blog já virou quase mensal. Estou dando um curso na Folha, para duas turmas, sobre numeralha. Está sendo bem interessante - a segunda turma começa na segunda.

Lembrei muito dos alunos quando vi esta notícia do Ministério Público Federal: MPF/BA ajuiza ações contra grupo que fraudava dados do IBGE

O que acontece é o seguinte: quanto mais habitantes tem uma cidade, maior é a parcela que a cidade recebe do Fundo de Participação dos Municípios (os repasses podem ser checados neste site. Outros repasses federais e estaduais também são distribuídos levando em conta esse critério. Lógico: quanto mais gente tem uma cidade, mais ela precisa de dinheiro para atender a população.

Para evitar que haja injustiça, o governo se baseia nos dados do IBGE, que são coletados com uma metodologia profissional. São os dados que norteiam as políticas públicas, enfim. Mas e quando quem produz o dado é corrompido? Pois foi o que aconteceu em pelo menos seis cidades do sudoeste baiano, segundo a denúncia.

O MPF descreve assim o esquema:

    Os réus aliciavam servidores do IBGE para alterar dados a fim de majorar números coletados e simular um aumento da população dos municípios de Encruzilhada, Ribeirão do Lago, Piripá, Maetinga, Jânio Quadros e Guajeru. O objetivo da farsa era redobrar valores dos recursos transferidos pelo Fundo de Participação dos Municípios (FPM), além de outros programas de governo que utilizam dados demográficos para cálculo de repasses, como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef).

    Irregularidades - Em depoimento à Comissão de Sindicância do IBGE, agentes censitários supervisores e recenseadores confirmaram que eram instruídos por superiores a “criar” famílias e inventar nomes de pessoas para atingir um número maior nas pesquisas. Em contrapartida, recebiam dinheiro como “ajuda de custo”. Algumas vezes, os funcionários eram orientados a preencher as folhas de resposta e cadernetas a lápis para que os dados fossem modificados posteriormente.

    Em Caraíbas, foi detectada a inclusão de mais de cinco mil pessoas inexistentes a pedido do ex-gestor Lourival Silveira Dias, que desejava a obtenção de quantitativo populacional superior a quinze mil pessoas para justificar a quantidade de eleitores cadastrados no município. Os números majorados serviriam, ainda, para promover o aumento do coeficiente de participação no FPM e para a criação de duas cadeiras na Câmara Municipal.

    Nos municípios de Piripá e Maetinga, além da alteração dos números, foi detectada a inclusão de pessoas que residiam anteriormente nas cidades mas mudaram-se para São Paulo. Na cidade de Encruzilhada, detectou-se também a admissão de recenseadores previamente escolhidos pelo grupo responsável pela fraude. Em Ribeirão do Lago e Grajeru, as folhas de coletas eram rasuradas e os números modificados. Já em Maetinga e Jânio Quadros, foram apontados casos de recenseamento em duplicidade e triplicidade, além do acréscimo de localidades inexistentes.

Nada impede que golpes semelhantes tenham acontecido em outros municípios. Mas só será possível saber se houver denúncia. Nesse tipo de caso, numa fraude de censo, é praticamente impossível até para especialistas checar se e onde houve fraude. Aqui foi descrita a investigação:
    Após instauração do inquérito civil, a chefia da unidade estadual do IBGE promoveu levantamento de campo e análise comparativa entre os dados obtidos em 2000 e 2007, que apontou significativo decréscimo populacional em 2007. A análise aponta que, em muitos municípios, o decréscimo foi provocado por imprecisões nas divisas municipais e por movimentos migratórios, no entanto, em algumas cidades comprovou-se a prática de ações delituosas por servidores do IBGE.


Na dúvida, desconfie sempre dos números. Até dos números de instituições muito profissionais, como o IBGE. Por mais correta que seja a instituição, sempre pode haver maçãs podres lá dentro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Há sete décadas...

...a Inglaterra declarava guerra ao chanceler alemão Adolph Hitler, que invadira o corredor polonês. Estava iniciada a Segunda Guerra Mundial.

Está interessante ler os especiais britânicos, na Web, sobre o assunto.

O mais interessante de todos é o BBC Archive: World War II. Eles resgatam desde o primeiro áudio, em que o primeiro-ministro Neville Chamberlain anunciou estar em guerra. Estão no ar 12 documentos, incluindo scripts originais dos programas e recomendações que circulavam internamente sobre como os funcionários da rádio deveriam se proteger de bombardeios. É um baú do tesouro para os tarados por jornalismo.

Também britânico, o Daily Telegraph começou a publicar artigos e fotos originais sobre o início da guerra em uma seção especial. O Guardian faz um balanço da guerra e o The Times segue por um rumo mais pessoal: relembra o que se comia nos tempos de penúria e pede a colaboração dos leitores pra saber o que seus familiares faziam quando começou a guerra.

No Brasil, ainda não vi nada interessante na Web, e aceito dicas.

A Superinteressante publicou uma reportagem muito legal sobre o que se sabe sobre a guerra, 70 anos após sua eclosão. Mas não há nada no site deles pra fazer jus.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O forró dos estudos do IPEA

Você conhece o churnalismo chique-chique, que botou uma butique na internet para a vida melhorar? Pois é. O IPEA tá de olho na butique dele, com estudos que mais parecem letras de forró do Genival Lacerda.

Se você mora no Nordeste ou assistia televisão nos anos 80, você conhece a obra: o refrão parece dizer uma coisa, mas depois vem a letra e mostra que não bem assim. Tipo a letra de "Ela Deu o Rádio", cujo refrão podia soar picante ("Ela deu o rádio, ela deu sim/Ela deu o rádio, e não foi pra mim"), mas na verdade se tratava de um radinho de pilha mesmo.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) foi a primeira fonte de estudos pautáveis que eu consultei regularmente, no final dos anos 90. Lembro de um estudo glorioso sobre o custo dos engarrafamentos de trânsito, por exemplo. O banco de dados Ipeadata reúne números inestimáveis.

Só que pelo menos desde janeiro o IPEA tem publicado estudos otimistas demais, quase feitos sob encomenda para entrarem em discursos políticos. Eu pessoalmente não tenho nada contra o Brasil melhorar, até quero muito. O problema é que esses estudos, assim como os forrós do Genival Lacerda, SEMPRE têm uma vírgula depois da qual é possível ver que a coisa não é bem assim.

O primeiro, que dissequei na primeira versão do "E Você Com Isso?", foi um que dizia ser o gasto com saúde no Brasil "mais eficiente" que em países ricos. A Agência Brasil deu praticamente o release na íntegra. Na lógica do churnalismo, a notícia se alastrou por todos os portais de notícias. Mas não era bem assim - o eficiente da notícia era como o rádio do forró. Significava basicamente que a situação é tão ruim que qualquer dinheirinho a mais que entrar já dá uma boa melhorada. O estudo, aliás, era bem sinuoso nas afirmações. De acordo com ele, os resultados "não são totalmente desfavoráveis" ao Brasil. Não se entrou no mérito sequer de como o dinheiro é administrado.

O segundo tratava da quantidade de funcionários públicos - de acordo com o estudo, o Brasil tem menos funcionários públicos que os EUA. Foi noticiado pela Agência Brasil e repetido pelo O Globo. O problema é que eu li o estudo inteiro (baixe aqui) e ele não faz comparação nenhuma a respeito da eficiência desses servidores. Teoricamente, mais funcionários significam mais eficiência no serviço público. Mas só teoricamente: o Senado, não custa lembrar, tinha 10 mil funcionários. E presta serviços à altura do staffing? Não adianta ter um monte de gente e continuar funcionando mal. Encher de gente por encher de gente é agir como aquele prefeito do interior de piada, que em seu primeiro dia de governo foi à praça pública queimar uma pilha de pneus. "Na minha campanha, eu prometi transformar São Pafúncio do Passa Longe em uma cidade grande, e toda metrópole tem poluição", justificou-se.

O terceiro abordava a questão dos impostos. Segundo o estudo, o país paga mais de um terço de seu Produto Interno Bruto (PIB) em impostos (confira aqui o release original). Em relação ao PIB per capita, fica mais ou menos a mesma proporção que se paga no Reino Unido. Será que os serviços públicos que recebemos em troca desse um terço do PIB são proporcionais aos que os ingleses recebem? Tenho cá minhas dúvidas. Mais uma vez, o estudo não entrou no mérito de como são usados esses impostos.

Mais recentemente, veio o quarto estudo. O título da Agência Brasil é chamativo: "Produtividade no setor público é maior do que no setor privado". Eu não tive tempo ainda para ler com calma o estudo, mas eu não reproduziria essa notícia assim no mais. Esses estudos SEMPRE têm uma vírgula que derruba o refrão do Genival Lacerda.

O principal motivo pelo qual precisamos estar atentos aos números, em vez de sermos seduzidos facilmente por eles, é o fato de que quem quer passar uma mensagem distorcida conta exatamente com nossa ignorância. Senão, a gente dança o forró do rádio.

Não se contente com o release. Olhe o estudo inteiro, veja se faz sentido. Olhe as planilhas. Compare os números. Faça contas básicas. Procure o autor pra perguntar sobre suas dúvidas, talvez. Mas não se deixe enganar tão facilmente.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Dando voz à imaginação

Tenho ouvido vários podcasts nos últimos dois anos e pouco.

O principal motivo pelo qual eles me fascinam é simples: foi por meio deles que me caiu a ficha de como REALMENTE aquela distinção que se fazia quando entrei na faculdade, entre profissionais "de impresso", "de rádio" e "de TV", não faz mais muito sentido na internet. Claro que há aptidões e aptidões - mas áudio, vídeo, texto e muito mais convivem bem entre si na rede.

Os primeiros podcasts que eu descobri foram os do New York Times e do Guardian, meus jornais favoritos no mundo.

O jeito mais fácil de fazer um podcast de jornal é botar o autor de uma coluna para lê-la. Ou um jornalista de boa voz para ler as manchetes do dia. Mas eu acho isso algo bem fraco - em parte porque leio mais rápido do que ouço, em parte porque texto escrito não tem a naturalidade do texto falado.

Os podcasts podem servir para agregar à informação já publicada. É uma camada a mais de informação para quem gosta.

No Times, gosto muito do "World View", uma conversa com os correspondentes do jornal, e o "NYT Tech Talk", sobre tecnologia. No Guardian, gosto de alguns especiais.

Se quiser me ver pirar, porém, é com os podcasts da BBC. Mas eu sei que é covardia, porque a emissora britânica tem mais de sete décadas de experiência como a melhor rádio do mundo. De qualquer forma, é sempre uma bênção poder abdicar dos palpiteiros do rádio local para ouvir programas como "More or Less" (sobre números) e "Thinking Allowed" (conversas com sociólogos e outros pesquisadores de ciências humanas sobre temas sempre interessantes), além de entrevistas e documentários de primeira linha.

No Brasil, ouço muito poucos podcasts. A Folha faz alguns, inclusive sobre horóscopo pra quem gosta (não é minha praia). Ouço o da Eliane Cantanhêde. A rádio CBN permite baixar alguns programas e colunas. Mas ainda não pegou.

O legal dos podcasts é que as ferramentas estão à mão de todos.

Meu Mano Velho Eduardo Sales Filho edita o Papo de Gordo toda semana, batendo papo com amigos de peso. Ele usa o Skype pra juntar o pessoal e o Audacity para editar. O amigo Vitor Benvindo, lá no Rio de Janeiro, faz um programa sobre rock antigo chamado Mofodeu, que pode ser baixado como podcast.

Já o meu mestre Cazé Peçanha, da MTV, criou um site para qualquer um fazer minipodcasts até pelo telefone, o Gengibre. Eu tenho um perfil lá onde posto algumas provocações que todos podem responder em texto ou áudio. Anteriormente, também usando o Audacity, fiz alguns podcasts sobre o Deep Purple (sim, eles são minhas cobaias mesmo).

As possibilidades são várias. Você pode fazer podcasts com trechos das entrevistas que faz, pra botar no online de onde você trabalha, por exemplo.

Se você pretende experimentar com podcasts, porém, procure pensar muito bem na edição antes de fazer. Isso inclui pensar bem o texto, ou selecionar muito bem os trechos de fala, além de incluir música e outros sons se possível.

A maior parte dos podcasts amadores bate uma hora de duração. Isso me frustra, porque eu dificilmente tenho uma hora para ouvir um áudio sobre um assunto só. Por isso não tenho paciência de ouvir rádio. Isso pra não falar do "peso" em megabytes dos arquivos.

A maior parte dos podcasts da BBC tem menos de meia hora. Não há assunto que eles não consigam aprofundar nesse tempo. Acho que essa é uma ótima duração. Como eu costumo ouvir podcasts no ônibus ou na rua, dá pra ouvir metade na ida e metade na volta quando saio de casa.

Hoje, há quinhentas coisas brigando pela atenção de cada um: todas as possibilidades da internet, trocentos canais de TV, radio, videogame, jornais, revistas, livros, música a rodo, vídeo de todo jeito... Se você não fisgar a atenção do leitor/ouvinte/espectador, é bastante fácil ele arrumar outra coisa para fazer.

O iTunes, da Apple, é um programa que facilita encontrar e baixar podcasts. Ele tem uma experiência ótima na idéia, mas péssima na execução: a iTunes University. Várias universidades de alto nível (e outras nem tanto) gravam aulas e palestras e permitem que qualquer um baixe.

Genial, né?

Nem tanto.

Já baixei semestres inteiros de aulas sobre assuntos tão fabulosos quanto a história da informação, desde o surgimento da escrita até hoje. (Bom, pra mim é fabuloso.) Mas, além de a gravação estar distante, muito baixa, cheia de ruído, a primeira aula era inteira dedicada a explicar como funcionavam as presenças e a avaliação. No começo de cada aula, o professor conversava sobre aspectos administrativos - com som ruim e tudo. Desisti.

Hoje, botei para ouvir uma palestra da universidade de Cornell sobre a história do vinho nos Estados Unidos. Assunto fascinante - mas eles mantiveram todo o blablablá da oradora, todas as palmas, toda a descrição do currículo do palestrante... e quando o ônibus chegou na minha parada o sujeito tinha acabado de limpar a garganta e agradecer pela presença de todos.

Se você quer fazer um podcast, pense no tempo do seu ouvinte. Ele vale ouro.

E vocês? Ouvem podcasts? Fazem? De que gostam e de que não gostam?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Mordendo o cachorro


Muita gente tem dificuldade pra encontrar pautas, sem dúvida. Já vi muitos jornalistas, especialmente jovens e de meios de comunicação pequenos, reclamando que as assessorias não lhes mandam release e prejudicam suas pautas. Tenho vontade de sacudir esse povo quando vejo essa choradeira. Isso é o vício do churnalismo.

Acho que a principal capacidade que um jornalista deve procurar desenvolver é a habilidade de enxergar pautas. Isso depende um tanto de prática, outro tanto de atenção, outro tanto de malandragem e imaginação.

Há jornalistas que partem para outros lados - se não tem notícia, eles inventam fatos. Isso tem graus variados - invenção completa, à la Jayson Blair; supervalorização de fatos insignificantes; e o provocamento de situações noticiáveis.

É famosa a frase do personagem de Kirk Douglas em "A Montanha dos Sete Abutres": "Sei lidar com notícias grandes e pequenas. E, se não tiver notícia, eu saio e mordo um cachorro."

Essa lógica, levada às últimas conseqüências, é a acusação feita ao deputado e apresentador de programa policial amazonense Wallace Souza. Ainda não repercutiu muito no Brasil, mas já está na Associated Press:

    A polícia brasileira afirma que o apresentador de um programa de TV sobre crimes está sendo investigado por possivelmente ordenar assassinatos para aumentar a popularidade de seu programa.

    O apresentador do programa, na região sem lei da Amazônia, também é um deputado estadual e ex-policial. Os procuradores dizem que ele também enfrenta acusações de tráfico de drogas e formação de quadrilha.

    O chefe da inteligência da polícia do Estado do Amazonas, Thomaz Vasconcelos, disse nesta terça que os investigadores acreditam que Wallace Souza "mandava cometer crimes para criar notícias para seu programa". Ele disse que Souza está sendo investigado por envolvimento em quatro crimes.

    O advogado de Souza, Francisco Balieiro, disse que Souza é inocente e que as acusações são uma tentativa de seus inimigos políticos de difamá-lo.

Crianças: por mais que falte pauta, não façam isso em casa.

domingo, 5 de julho de 2009

Churnalismo e preconceito jogam oito anos fora

Em 2001, uma guria de 18 anos foi encontrada morta num cemitério em Ouro Preto. Estava de braços abertos e havia sofrido 17 facadas. Segundo a acusação, ela teria sido morta por colegas que jogavam RPG (Role-Playing Game) com ela. O julgamento foi ontem, e os acusados foram absolvidos por falta de provas.

Desde o começo, o caso virou um circo. A acusação focava principalmente no caráter "maligno" do jogo como prova de que os acusados haviam matado. Criou-se na época, há oito anos, até uma campanha pra tornar ilegal o RPG, na lógica imbecil e mui brasileira do "na dúvida, proíba-se". Os jornalistas embarcaram no bonde, em títulos como este:

Acusado de crime em Ouro Preto admite conhecer RPG

Esse bonde é tosco pelo seguinte: o RPG é tão culpado por um assassinato ocorrido durante uma partida quanto o truco é culpado pelo infortúnio deste cavalheiro tornado famoso pelo YouTube:



Quem mata não é o jogo. Quem mata é o assassino. Foi a primeira vez em que eu vejo a acusação, e não a defesa, culpar entidades sobrenaturais por um assassinato cometido por seres humanos.

Resumo da ópera: a investigação foi malfeita, focando no "jogo do demônio". O churnalismo teve sua participação, publicando acriticamente tudo o que os investigadores diziam, especialmente com o sensacionalismo do foco sobre o jogo. Os investigadores tiveram seus 15 minutos de fama como paladinos da moral e bons costumes contra o jogo do demônio.

Quando chegou a hora de julgar, havia acusados mas não havia provas concretas. O foco era sobre se os acusados conheciam ou não o jogo.

Criou-se uma polarização. Os fãs do RPG estão comemorando a decisão - o jogo foi absolvido, enfim. A culpa pelo escândalo eles vêm pondo na mídia sensacionalista que satanizou o jogo. E em boa parte é, mesmo. Não acompanhei a cobertura do caso, mas vi muito pouco questionamento fundamentado desse foco.

Só que tem o seguinte. A moça continua morta. Com 17 facadas, suicídio é que não foi. Perdeu-se oito anos nessa polarização imbecil sobre se foi ou não o jogo do demônio o culpado pela morte. A investigação terá que ser refeita. Oito anos depois, difícil que as evidências estejam íntegras o suficiente.

A tendência é que tenhamos mais um crime insolúvel no Brasil. O que é mais um ou menos um, não é mesmo?

Caso os jornalistas tivessem feito um pouco seu trabalho e questionado o foco desde o começo, dando menos holofote à imbecilidade, talvez o caso não ficasse tão popular, mas haveria um pouco mais de chance de o assassinato ser resolvido.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Caiu a obrigatoriedade do diploma. E agora?

O Supremo Tribunal Federal decidiu que o diploma de jornalismo não é mais obrigatório. E eu acho isso genial. Abri aqui em casa um Pinotage sul-africano para comemorar.

Mas eu sou minoria. No Twitter, está uma choradeira braba - o famoso #mimimi. O pessoal reclama coisas como "de que adiantou estudar?". Já vi gente dizendo coisas como "paguei na faculdade o equivalente a um carro zero, quem me devolve agora?" A mais engraçada é "e agora, que qualquer analfabeto pode tirar meu emprego?"

Discordo veementemente. A queda da obrigatoriedade não proíbe o funcionamento das faculdades e nem torna ilegais os diplomas já expedidos e a expedir. O diploma não "foi derrubado" nem "está extinto", como dizem alguns comentários.

Estudar jornalismo pode ser bastante útil para se tornar um jornalista, se o curso for bom. Algumas empresas continuarão contratando apenas formados, e é razoável. A desobrigação só tornará inúteis os quatro anos de estudo de jornalismo em dois casos:

    1) Quando sua faculdade é muito ruim e nada que você aprenda nela vai acrescentar absolutamente coisa alguma ao que você já traz de casa ou pode aprender na prática. Nesse caso, é uma boa oportunidade pra mudar pra uma melhor ou mudar de curso. Ou largar de vez e procurar um trampo (emprego é raridade hoje em dia) em jornalismo.

    2) Quando você quer comprar um canudo em prestações, e não refinar sua formação. Nesse caso, lamento, mas nem se o diploma continuasse obrigatório você conseguiria um lugar ao sol no mercado. Largue a faculdade e aproveite o tempo extra para estudar para algum concurso público. Estabilidade garantida, fim de semana, feriados, férias, licenças, aposentadoria, etc. Para você, será muito melhor do que o cenário complexo de incertezas que o jornalismo enfrenta hoje, e poupará seus pais de decepções futuras.

De qualquer forma, acho que vai ser uma bela oportunidade para as faculdades mostrarem na prática para que servem. Um bom começo seria melhorar MUITO o que ensinam, refinar MUITO o pensamento que se produz sobre jornalismo lá dentro.

Mais sobre esse ponto específico neste post de há alguns dias.

    EDITADO: Faltou mencionar um dos argumentos ruins do mimimi. Como disse o meu veterano da UFRGS Tiago Jucá, se você tem medo de concorrer com analfabetos, melhor plantar batatas.