quinta-feira, 18 de março de 2010

Será que o problema somos nós?

Philip Meyer, meu maestro soberano, toca numa questão importante sobre jornalismo e políticas públicas num artigo publicado nesta semana no USA Today: será que estamos fazendo direito nosso papel ao cobrir política?

E o eleitor, com a explosão de meios informativos do seu gosto estrito (como no Brasil os pró-Lula se informando com blogs polarizados pra um lado e os antilula se informando com blogs polarizados pra outro lado), não acaba sendo sugado para um gre-nal inútil?

Meu maestro soberano acompanha a política e o jornalismo político americano desde 1962. Ele parece pessimista. E o quadro que ele pinta me parece muito com o que temos no Brasil hoje.

Concordo em boa parte com o que ele diz, ainda que algumas ideias tenham me surpreendido. Como sempre, aliás.


Talvez nós sejamos o problema

Numa era em que há informação demais, um eleitorado seletivo simplesmente reforça ideologias rígidas. Ainda assim, culpamos nossas autoridades eleitas.



Por Philip Meyer


Um congresso disfuncional? Talvez não seja esse o problema. Considere a possibilidade de que o problema seja um eleitorado disfuncional que evita que qualquer coisa aconteça em Washington.

À medida que os jornais perdem anúncios para meios mais novos, todos nos preocupamos com como pagar pelo jornalismo que mantém os cidadãos informados e motivados.

Mas existem outros problemas para que esse jornalismo seja feito. Precisamos de um público que preste atenção e esteja disposto a agir sobre a informação que recebe. Sem ele, o engarrafamento parlamentar que vemos durante o ano inteiro não tem cura.

O que também importa é saber se a informação nos une ou nos divide. Se um liberal se encasula nos escritos de Paul Krugman, no sarcasmo de Keith Olbermann e nos resmungos do Huffington Post, ele ficou mais esclarecido ou simplesmente mais convicto?

Se um conservador passa uma hora com Sean Hannity, absorve a prosa de Charles Krauthammer e acampa no The Weekly Standard, ele tem de fato uma compreensão melhor do plano de saúde proposto por Obama, por exemplo?

Os repórteres de Washington têm parte da culpa. Eles fazem um bom trabalho cobrindo todos os vãos e desvãos das brigas entre a maioria democrata e a minoria republicana. Mas não são tão bons em mostrar o contexto maior e motivar-nos a agir.

Paul Lazarsfeld, o grande sociólogo que morreu em 1976, foi co-autor de um artigo que dava nome a esse problema, há mais de meio século. Informação demais, diz ele, pode levar à "disfunção narcotizante". Em outras palavras, um público eleitor cercado por uma plétora de detalhes e pelo jogo de bastidores vai simplesmente se sentir inútil e apático. Podemos saber muito, e isto nos faz bem, mas deixamos o conhecimento substituir a ação.

O ambiente de mídia que preocupava Lazarsfeld era muito diferente do de hoje. Menos de 1% das casas tinham televisão. Ainda assim, somando o rádio e os meios impressos, havia uma enchente de informação. O cidadão médio, disse Lazarsfeld em 1948, considerava 'suas leituras, audições e pensamentos como a uma performance de vigário. Ele passa a confundir saber a respeito dos problemas do dia com fazer algo a respeito.'

'Sua consciência social permanece imaculadamente limpa. Ele se preocupa. Ele está informado. E ele tem todo tipo de ideia sobre o que devia ser feito.'

'Mas... depois de ter ouvido seus programas favoritos no rádio e lido seu segundo jornal do dia, já passou da hora de ir para a cama.'

Hoje, com muitos outros canais de informação, incluindo TV a cabo, Twitter, Facebook e uma multidão de blogs, estamos cada vez mais soterrados por informações potencialmente narcotizantes. Mas nós não estamos mais inteligentes do que antes. O nível de conhecimento político nos EUA tem se mantido bastante estável ao longo do tempo.

Entretanto, desde o tempo de Lazarsfeld, e especialmente desde cerca de 1990, quando Tim Berners-Lee decidiu chamar a coisa que inventou de World Wide Web, temos consumido um tipo diferente de conteúdo de mídia. Ele é mais especializado. Presta-se menos atenção a áreas de interesse comum, onde pessoas com diferentes pontos de vista podem tentar compreender umas às outras. Essa falta de um ponto comum informativo torna o governo representativo bem mais difícil. Quando não há interesse em saber e compreender as ideias dos outros, não pode haver deliberação. Recaímos num método de votação simples, de aprovar ou reprovar. Quando as coisas saem mal, simplesmente expulsamos os pulhas.

Os Democratas venceram em 2008 porque a economia estava azedando. Os Republicanos notaram, e então sua mais alta prioridade é que o presidente Obama falhe para que os Democratas sejam os pulhas de 2012. Eles são bastante abertos a esse respeito. Onde chegaremos assim?

Caso funcione, o que pode impedir que uma minoria Democrata em 2013 mine o governo da presidente Sarah Palin com mais engarrafamento? Se levar um governo a falhar é o caminho da vitória, estamos naquilo que os engenheiros de software chamam de 'loop': damos voltas e mais voltas e não conseguimos sair disso.

Não culpe o Congresso. Se um eleitorado narcotizado não se envolve, o inimigo somos nós.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O dia em que eu colaborei com o Glauco

(EDITADO EM 14.MAR.2010, CORRIGINDO CIRCUNSTÂNCIAS DA MORTE)

Morreu nesta noite, num ataque imbecil (afinal, não o são todos?) de um chapado que pensava ser Jesus, o chargista Glauco. Ele foi um daqueles chargistas que, depois da posse do Lula, não entraram na esparrela de que humor pode ser a favor dependendo do personagem. Ele cutucava todos os governos do mesmo jeito, com elegância, sem fazer "humor a favor" e nem resvalar para o escatológico ou a piada fácil ("presidente cachaceiro" etc).

Tive a honra de colaborar com ele indiretamente, certa vez, quando trabalhei na Folha. 

O repórter Ronald Freitas certo dia obteve o contrato social da construtora Lavicen, empresa fantasma subcontratada para construir a obra superfaturada do túnel Ayrton Senna, na gestão Maluf da prefeitura de São Paulo. Com sede no interior do Paraná, ela teria sido usada para lavar dinheiro. E um dos seus sócios se chamava Lavino Kiil - algo bom demais pra ser verdade, num caso de lavagem de dinheiro.

Fuçando na internet, nas listas telefônicas do Paraná, descobri para o Ronald o telefone do Lavino Kiil. Ligamos. Atendeu um velhinho, com a voz trêmula. Era um sapateiro aposentado. Este foi o diálogo:






Folha - Quem fala?




Lavino Kiil - É o Lavino.




Folha - Sr. Lavino, é Ronald Freitas, da Folha de S.Paulo. Tudo bem?




Kiil - Quem?




Folha - Ronald Freitas, da Folha de S.Paulo. Eu estou ligando para o sr. porque o sr. consta como dono da empresa Lavicen Construções e Locações de Máquinas de Terraplenagem Ltda. O sr. é dono ou já foi dono dessa empresa...




Kiil - Não.




Folha - ...com sede em Abatiá?




Kiil - Não. Sabe o que é: me aposentei como sapateiro e tenho sapataria ainda.




Folha - Deve estar havendo alguma confusão. Deixe eu lhe explicar melhor. Essa empresa, Lavicen, na época da construção do túnel Ayrton Senna, em São Paulo, alugou máquinas de terraplenagem, caminhões e tratores para a obra. Existe a suspeita no Ministério Público de que essa empresa lavaria dinheiro, seria apenas uma empresa de fachada. O sr. conhece alguém, algum dia assinou algum documento relativo a essa empresa, alguém lhe convidou para montar essa empresa?




Kiil - Não, não, não.




Folha - O sr. pode ter sido usado como laranja?




Kiil - Não.




Folha - É uma coisa muito comum.




Kiil - Não. Você está telefonando de São Paulo?




Folha - Sim.




Kiil - Ah, que legal! Minha terra!




Folha - Sua terra? 




Kiil - Eu nasci em Brotas (245 km a noroeste de São Paulo).




Folha - E está no Paraná há quanto tempo?




Kiil - Ah, já faz... muitos anos.




Folha - O sr. já morou em Abatiá




Kiil - Abatiá, não.




Folha - O senhor conhece Joel Gonçalves Pereira?




Kiil - Joel Gonçalves Pereira...[repete, como quem força a memória]




Folha - Que mora em Curitiba...




Kiil - Mas ele é o quê? É pastor, é crente, o que é que é?




Folha - Ele é representante comercial. Pelos documentos da Lavicen, seria seu sócio na empresa.




Kiil - [Risos] Brincadeira.




Folha - Eu estou ligando para o sr. porque é sério.




Kiil - Se eu tivesse alguma coisa a ver com isso, eu não estava tão sorridente desse jeito.




Folha - Quantos anos o sr. tem, seu Lavino?




Kiil - 68.




Folha - O sr. sempre trabalhou como sapateiro? Nunca teve nenhuma outra atividade?




Kiil - Não, tive. Tive restaurante, tive bar, eu mexi com a vida, sabe? Tive salão de beleza. Olha, eu fui lutador para criar meus seis filhos.
Folha - Empresa de aluguel de equipamento o sr. nunca teve?




Kiil - Não, não. Isso aí, não. Eu vou dizer uma coisa para você. Você deve procurar, não estou denunciando, mas onde eu tenho muito parente Kiil é em Limeira. Lá tem uns ricos, ricos. Tem vila inteira deles lá.




Folha - Mas os Kühl de Limeira se escreve K-u-h-l.




Kiil - É, o deles é diferente.




Folha - O seu escreve como?




Kiil - K, dois "is" e um "ele".




Folha - O sr. mora no Paraná há quanto tempo?




Kiil - Espere aí. [Kill pergunta à mulher, Ana, há quanto tempo vivem no Paraná]. Acho que há uns 40 anos.




Folha - Pelo registro na Junta Comercial, a Lavicen foi aberta em 1987. O acordo com a Constran seria de 1993. O senhor não tem nada a ver com isso?




Kiil - Não.




Folha - O Joel Gonçalves Pereira o sr. não conhece?




Kiil - Não.




Folha - Nunca teve nenhum amigo, ninguém da sua relação que tivesse esse nome?




Kiil - Não.




Folha - Nunca morou em Abatiá?




Kiil - Não. Abatiá, não.




Folha - Mas conhece Abatiá?




Kiil - Não, só conheço um bom jogador de futebol, que era o Sebastião Batiá.
A reportagem, "Sapateiro 'construiu' túnel na gestão Maluf", fez sucesso. Mas a melhor medida desse sucesso foi o trabalho dos chargistas em cima dessa piada pronta. Como esta charge do Glauco, publicada no dia seguinte e que não altera em quase nada o que o seu Lavino disse:

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Os churnalistas nunca leram a MAD

Causou polêmica na internet ontem a notícia de que a revista MAD teria tido censurada uma capa que misturava o filme do Lula com o Avatar.

A fonte: o site oficial da revista. Que publicou a capa e esta declaração:

"Infelizmente, não podemos revelar quem foi o autor desta censura. Tá (sic) achando que a gente quer perder o emprego ou aparecer com a boca cheia de formiga no Rio Tietê?"


Muita gente caiu. Deu na Folha, que depois o Noblat reproduziu. Depois, vários blogs de política entraram na farra, acrescentando considerações a respeito dos caricaturados na capa supostamente censurada. A Panini, que publica a revista, teve que se retratar:


"Com relação à questão da capa da edição 23 da revista "Mad", as decisões sobre a publicação das capas fazem parte de processos internos da empresa, não se tratando de qualquer tipo de censura ou veto".


A MAD é uma revista de humor escrachado. Eu adorava aos 12 anos. Ninguém que tenha lido a revista alguma vez cairia no trote. No começo dos anos 90, de vez em quando o Ota, editor da revista, inventava um factóide pra agitar leitor. Coisas tipo "o Ota virou mendigo e agora quem edita a revista é a recepcionista semianalfabeta". Todo leitor sabia que era galinhagem, que era piada. É parte do humor da revista.

Mas tudo bem, o hábito de ler não é lá muito cultivado pelos jornalistas do online - eles têm pouco tempo pra ler, ocupados que estão fazendo controlcê e controlvê. Mas podiam parar pra pensar também.

Censura prévia por parte de governo não existe mais há mais do que um bom par de décadas. Na hipótese de covardia da empresa, a capa "censurada" não seria publicada no blog oficial da revista. Claro que a repercussão toda não levou isso em conta.

A repercussão do trote da MAD seguiu a lógica do churnalismo.

Funciona assim: alguém vê uma coisa aparentemente bombástica na internet e publica sem checar. Afinal, as listas de notícias precisam ser alimentadas a cada minuto. Os concorrentes vêem isso publicado e correm atrás do furo, afinal ninguém quer estar atrás do concorrente nem no erro. Controlcê, controlvê, opinião. (Embora eu não veja esse desespero pra correr atrás dos acertos, tipo usar mapas interativos. É que dá trabalho.)

Não é a primeira vez em que isso acontece. Em 1º de abril de 2002, o site da Herói publicou uma notícia falsa dizendo que o Batman teria sido vendido para a Marvel. Era trote, mas O Globo caiu.

Suspeito que, se eu escrevesse no meu blog da MTV sobre política que acabo de criar o Partido Soarista do Brasil para concorrer a presidente, viraria notícia na web. Mesmo que fundar um partido não seja assim tão simples quanto inventar um nome. Mesmo que pra concorrer a qualquer coisa seja preciso ser filiado a um partido há pelo menos um ano. Mesmo que pra concorrer a presidente precise ter 35 anos (eu tenho 33).

Não entro nem no mérito do meu perfil antipartidário, que quem lê o blog com frequência conhece, mas quem não lê pode não deduzir (e sempre cai de pára-quedas um petista me chamando de tucano quando cutuco o PT e um tucano me chamando de petista quando eu cutuco o PSDB). Só pela suspensão da lógica em nome do engordamento das listas de notícias eu suspeito que vários patos cairiam. Talvez um dia seja uma experiência interessante de fazer.

Boa parte disso se deve à máxima do "escreveu, não leu, o pau comeu". O pessoal é pago pra escrever, mas não tem o árduo costume de ler nem revista de besteira. Como leitor, lamento. Como jornalista, me irrito de ter de chamar esses deserdados da noção de colegas.

O churnalismo tem passado glorioso e futuro promissor.

LEIA MAIS:
O churnalismo e o submercado
O império do churnalismo e os produtos intermediários

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Uma reflexão filosófica sobre o futuro do jornalismo impresso

(EDITADO E AMPLIADO EM 24.FEV.2010.)

Venho usando o Formspring para receber perguntas e formular respostas sobre temas variados que quem pergunta supõe que sejam do meu domínio.

Gosto disso de pensar com os dedos. Ontem, um amigo perguntou o que eu acho da noção da "morte" do jornalismo impresso. Segue abaixo minha resposta.



Sócrates, o filósofo grego, acreditava que a escrita mataria a memória. Do diálogo “Fedro”, de Platão:

“Ela tornará os homens mais esquecidos pois que, sabendo escrever, deixarão de exercitar a memória, confiando apenas nas escrituras e só se lembrarão de um assunto por força de motivos exteriores, por meio de sinais, e não dos assuntos em si mesmos. Por isso, não inventaste um remédio para a memória, mas sim para a rememoração. Quanto à transmissão do ensino, transmites aos teus alunos não a sabedoria, pois passarão a receber uma grande soma de informações sem a respectiva educação! Hão de parecer homens de saber, embora não passem de ignorantes em muitas matérias e tornar-se-ão, por consequência, sábios imaginários, em vez de sábios verdadeiros!”

A julgar pela opinião de Sócrates, todo avanço na cultura, ciência e tecnologia surgido nos últimos 25 séculos é produto do engodo acumulado e reproduzido de sábios imaginários. Inclusive o fato de seu diálogo sobre a escrita ter chegado até nossos tempos por ter sido... escrito.

Vou até mais longe. Quase 2.500 anos depois, tenho a séria suspeita de que a memória não chegou a morrer por causa da nova tecnologia de então – muito embora eu mal lembre o que almocei anteontem. Da mesma forma, também não me consta que o cinema tenha matado o teatro, ou a fotografia tenha matado a pintura. Tudo isso se transformou, e no caso da memória ela passou a usar a escrita a seu favor pra não sobrecarregar o HD (como temia Sherlock Holmes). O decoreba perde importância quando você pode consultar direto as fontes. Melhor reservar o poder de processamento da cabeça para outras coisas, tipo compreender, relacionar e retrabalhar aquilo que você consultou.

No final do século 15, quando Colombo descobria a América, noutras paragens Gutenberg também inventava a prensa de tipos móveis - que foi o que possibilitaria o jornalismo impresso. Adivinha só: a prensa de tipos móveis também foi criticada. No opúsculo "Elogio dos Escribas", o abade Johannes Trithemius sentenciava: "livros impressos nunca serão o equivalente a códices manuscritos... pelo simples motivo de que copiar à mão envolve mais engenho e arte". Um frade, Fra Filippo, criticava o aspecto comercial dos impressos: eram textos "desesperadoramente incorretos", preparados por ignorantes, que tentavam "tolos apedeutas a assumir os ares de doutores eruditos". Qualquer semelhança com o "sábios imaginários" do Sócrates não é mera coincidência. (Veja mais aqui.)

Ambos os textos chegaram a nosso tempo porque não foram apenas escritos, foram impressos.

Então vamos lá: ideias escritas minavam a memória, ideias impressas minavam a correção. Alguma semelhança com o debate que rola atualmente? Pois é.

Mal comparando, acho que o que vai acabar acontecendo com o jornalismo impresso é mais ou menos isso. Ele não precisa mais (aliás, desde a chegada da televisão) publicar cada informação incompleta que chega à sua redação. Entretanto, é o que faz. “Diz” é o verbo mais usado nos títulos, especialmente nas páginas de política. Mesmo em questões verificáveis (tipo "Fulano diz que ontem não choveu").

Parto de uma premissa fundamental. Sempre que vejo calorosos debates sobre se “blog é jornalismo”, “twitter é jornalismo” etc, eu me pergunto: e papel pintado, por acaso “é” jornalismo? Não. Estamos acostumados com ele há séculos. Papel pintado pode ser gibi, pode ser folheto de propaganda, pode ser catálogo de loja. E pode ter jornalismo também. Tudo depende do que você faz com ele, do que você pinta nele. Disso aí deriva todo o raciocínio que vem a seguir.

Por exemplo, acho desperdício gastar papel e tinta pra anunciar hoje o resultado do jogo de ontem, que você já ouviu no rádio, viu na tevê, tuitou na internet e zoou ao vivo. Esse jornalismo impresso arcaico já passou da hora de morrer. Há outros meios mais eficientes pra contar hoje o que aconteceu ontem. Eles contam hoje o que aconteceu hoje.

(Embora esses meios mais eficientes me chateiem com a quantidade de produtos intermediários – pautas, releases, retornos, flashes – que publicam como sendo produto final. E com a insistência em cobrir qualquer bocejo de celebridade como se fosse notícia. Isso acaba contaminando também o impresso, e se eu tenho que pôr a mão no bolso não faço a mínima questão de pagar por isso.)



São aprofundados? Aí depende. Aprofundamento não é uma característica intrínseca do papel. Vide os impressos gratuitos que grassam por aí e têm tiragens homéricas. Vide os próprios jornais impressos generalistas, que raramente tomam dez minutos do meu tempo pra percorrer inteiro e ler o que me interessa sequer na edição dominical – ao contrário do que acontece com jornais estrangeiros, até mesmo com o magrinho International Herald Tribune, que eu compro às vezes.

Foi mais ou menos por conta disso que eu cancelei minha assinatura de um jornal generalista, mas mantive a do Valor - que leio mais online do que em papel, mas por ser assinante tenho a senha. Já pensei em assinar o Guardian Weekly, que traz só o supra-sumo do que saiu de material exclusivo no Guardian durante a semana. Ainda gasto uma grana federal comprando revistas importadas.

Faz e fará sentido “imprimir” o conteúdo de alguma maneira - se o conteúdo vale a pena. Se for um conteúdo que faz sentido você ler sem que nada atrapalhe sua concentração, longe das distrações e do trabalho que você tem na tela do computador.

O que pode "ameaçar" isso são os leitores eletrônicos, quando se tornarem economicamente viáveis e se não virarem computadores de bolsa (sujeitos a todo tipo de distração a que se tem acesso na frente do computador, inclusive trabalho). Um e-reader mantém as características principais do impresso, eliminando basicamente o forro de gaiola e o caminhão – responsáveis por MAIS DA METADE do custo de produção de jornalismo impresso. Se essas traquitanas se tornarem economicamente viáveis e se popularizarem, mãe Natureza agradece, não?

As formas digitais já empurraram para obsolescência vários tipos de livros de referência (você conhece alguém que tenha comprado uma enciclopédia de papel recentemente?). Se é de referência, precisa ser rápido localizar o que tem dentro. Uma caixa de busca é mais rápida do que o dedão num índice. Mas recursos de consulta ainda são algo que pode competir numa boa com outras distrações.



O que mais interessa manter do jornalismo impresso não é exatamente o papel pintado por si: é a lógica de organização elegante de conteúdo para ler longe de uma tela onde mil outras distrações competem pelo seu tempo. Pra ler deitado, ler no banheiro, ler no ônibus. Para reconsultar quando precisar. Para sublinhar o que você achou importante e ler depois.

A forma de fazer isso, de diagramar elegantemente e ler com tranquilidade, se desenvolveu no papel. Aliás, Trithemius lamentava que os textos impressos não permitiam o capricho gráfico que os monges copistas imprimiam ao material manuscrito. A impressão se desenvolveu, e duvido que o abade dissesse o mesmo hoje.

Hoje, o papel pintado é o melhor suporte para a forma consagrada do jornalismo impresso. É barato, onipresente, portátil, fácil de manusear. Em 5 ou 10 anos, será que ainda será? E em 30 anos?

(O primeiro que falar “ah, mas o cheirinho do papel...” perde o recreio.)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Apesar dos latidos dos cachorros loucos, ninguém mentiu

Os cachorros loucos da internet, que adoram ver golpismo contra o Lula em qualquer manchete e dificilmente se dão ao trabalho de ler o texto, fizeram a festa ontem com as diferenças entre as manchetes do Globo e do Valor.

O Globo: Indústria teve pior queda em 19 anos (copo meio vazio)

Valor: Indústria fecha janeiro com atividade alta (copo meio cheio)

Para os cachorros loucos, que enxergam o noticiário em termos de bons e maus, amigos e inimigos, contra e a favor, salvadores da pátria e golpistas, ficou assim: por ter destacado a queda recorde num ano de crise mundial, O Globo é safado; por ter destacado a boa recuperação após um ano ruim, o Valor (que pertence em parte à mesma empresa que publica O Globo, aliás) está certo. Só posso atribuir isso ao pensamento mágico ou ao analfabetismo funcional.

Devagar com o andor. As duas manchetes se baseiam nos mesmos números do IBGE. Acesse os dados completos aqui.

Uma queda recorde em quase duas décadas É notícia, por qualquer ponto de vista. Uma recuperação rápida, coisa que não costumava acontecer, também é notícia. Os dois textos, para quem tiver esse costume fora de moda de se dar ao trabalho de ler, colocam as manchetes em contexto - foi um ano ruim, mas a indústria se recuperou bem; recuperou-se bem, mas passou por maus bocados antes disso.

Gostei da solução da Gazeta do Povo, de Curitiba:

Indústria tem pior resultado em 19 anos, mas se recupera. (copo pela metade)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Prêmio Philip Meyer 2009

Foram anunciados nesta semana os vencedores do prêmio Philip Meyer 2009, que reconhece os trabalhos jornalísticos mais aprofundados do mundo - ou ao menos os publicados em inglês, que é mais fácil inscrever. O prêmio é concedido desde 2006, e homenageia meu mestre Philip Meyer, autor do livro "Precision Journalism".

A lista completa dos vencedores desde 2006, com links para o material e descrição dos trabalhos, está aqui. Estes são os vencedores deste ano:


Primeiro lugar

"Efeito chaminé: ar tóxico nas escolas da América", USA Today
Autores: Blake Morrison and Brad Heath (making of aqui)
"Os repórteres Blake Morrison e Brad Heath usaram técnicas das ciências sociais e físicas para examinar os níveis de poluição do ar em escolas do país inteiro. Eles reuniram dezenas de milhões de registros sobre qualidade do ar e poluição industrial de quase 128 mil escolas, e então usaram o próprio modelo de poluição da Agência de Proteção Ambiental (EPA) para identificar milhares de escolas onde o ar era muito mais tóxico do que em bairros próximos. A equipe do USA Today também passou semanas coletando amostras de ar em 95 escolas de 30 estados, provando haver níveis altos de poluição em dois terços delas. As reportagens provocaram ação imediata da EPA, incluindo a criação de um programa de US$ 2,5 milhões para monitorar a qualidade do ar nas escolas.

Segundo Lugar

"MRSA: Cultura de resistência", The Seattle Times
Equipe: Michael J. Berens and Ken Armstrong (making of aqui)
"Usando uma abordagem engenhosa para a análise de dados, o Seattle Times expôs um chocante aumento, nos hospitais do Estado de Washington, de casos do germe resistente a drogas MRSA (Estafilococo aureus resistente a meticilina) - e o sistema de inspeção estadual que permitiu que isso ocorresse. Os repórteres usaram registros estaduais de mortes e dados de alta de pacientes (que não tinham um código específico para o MRSA) para descobrir uma maneira de identificar e rastrear os incidentes de MRSA em cada hospital. Eles também analisaram registros de inspeção estadual e fizeram uma pesquisa em hospitais para mostrar problemas e casos específicosto stitch together a way to identify and track the incidents of MRSA at individual hospitals. They also analyzed state inspection records and did a survey of hospitals to illuminate problems and cases."

Terceiro Lugar

"Cuidado comprometido", Chicago Tribune
Equipe: Reporters David Jackson, Gary Marx and Sam Roe, and Web applications and data management by Brian Boyer, Joe Germuska and Ryan Mark. (making of aqui)
"Este projeto começou com a curiosidade e preocupação com a notícia de que uma mulher de 69 anos, numa casa de repouso de Illinois, havia sido estuprada por outro interno - um paciente psiquiátrico de 21 anos com histórico de violência. A investigação que se seguiu revelou falhas sistêmicas perigosas na proteção aos pacientes idosos das casas de repouso de Illinois, que vêm sendo cada vez mais usadas para abrigar internos portadores de doenças mentais, incluindo assassinos, agressores sexuais e assaltantes. As tendências foram detectadas ao se fazer conexões entre registros e bancos de dados de uma ampla variedade de fontes. Um website interativo permite que os usuários explorem os registros de casas de repouso específicas. O projeto provocou ações estaduais e federais para deter os abusos."

Menção Honrosa

"Perfeitamente Legal", Arizona Republic
Equipe: Robert Anglen, Ryan Konig, Andrew Long and David Fritze (making of aqui)
"Esta série de quatro dias expôs um sistema em que 22 entidades filantrópicas e dezenas de afiliadas transferiram US$ 130 milhões entre si - embora muitas vezes fizessem pouco trabalho filantrópico. A equipe do jornal combinou técnicas tradicionais de reportagem investigativa com a análise de rede social de milhares de documentos para rastrear o caminho do dinheiro dos EUA para o Canadá, Inglaterra, Filipinas e América do Sul."

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

E quando os números são fraudados?

Ando trabalhando tanto que este blog já virou quase mensal. Estou dando um curso na Folha, para duas turmas, sobre numeralha. Está sendo bem interessante - a segunda turma começa na segunda.

Lembrei muito dos alunos quando vi esta notícia do Ministério Público Federal: MPF/BA ajuiza ações contra grupo que fraudava dados do IBGE

O que acontece é o seguinte: quanto mais habitantes tem uma cidade, maior é a parcela que a cidade recebe do Fundo de Participação dos Municípios (os repasses podem ser checados neste site. Outros repasses federais e estaduais também são distribuídos levando em conta esse critério. Lógico: quanto mais gente tem uma cidade, mais ela precisa de dinheiro para atender a população.

Para evitar que haja injustiça, o governo se baseia nos dados do IBGE, que são coletados com uma metodologia profissional. São os dados que norteiam as políticas públicas, enfim. Mas e quando quem produz o dado é corrompido? Pois foi o que aconteceu em pelo menos seis cidades do sudoeste baiano, segundo a denúncia.

O MPF descreve assim o esquema:

    Os réus aliciavam servidores do IBGE para alterar dados a fim de majorar números coletados e simular um aumento da população dos municípios de Encruzilhada, Ribeirão do Lago, Piripá, Maetinga, Jânio Quadros e Guajeru. O objetivo da farsa era redobrar valores dos recursos transferidos pelo Fundo de Participação dos Municípios (FPM), além de outros programas de governo que utilizam dados demográficos para cálculo de repasses, como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef).

    Irregularidades - Em depoimento à Comissão de Sindicância do IBGE, agentes censitários supervisores e recenseadores confirmaram que eram instruídos por superiores a “criar” famílias e inventar nomes de pessoas para atingir um número maior nas pesquisas. Em contrapartida, recebiam dinheiro como “ajuda de custo”. Algumas vezes, os funcionários eram orientados a preencher as folhas de resposta e cadernetas a lápis para que os dados fossem modificados posteriormente.

    Em Caraíbas, foi detectada a inclusão de mais de cinco mil pessoas inexistentes a pedido do ex-gestor Lourival Silveira Dias, que desejava a obtenção de quantitativo populacional superior a quinze mil pessoas para justificar a quantidade de eleitores cadastrados no município. Os números majorados serviriam, ainda, para promover o aumento do coeficiente de participação no FPM e para a criação de duas cadeiras na Câmara Municipal.

    Nos municípios de Piripá e Maetinga, além da alteração dos números, foi detectada a inclusão de pessoas que residiam anteriormente nas cidades mas mudaram-se para São Paulo. Na cidade de Encruzilhada, detectou-se também a admissão de recenseadores previamente escolhidos pelo grupo responsável pela fraude. Em Ribeirão do Lago e Grajeru, as folhas de coletas eram rasuradas e os números modificados. Já em Maetinga e Jânio Quadros, foram apontados casos de recenseamento em duplicidade e triplicidade, além do acréscimo de localidades inexistentes.

Nada impede que golpes semelhantes tenham acontecido em outros municípios. Mas só será possível saber se houver denúncia. Nesse tipo de caso, numa fraude de censo, é praticamente impossível até para especialistas checar se e onde houve fraude. Aqui foi descrita a investigação:
    Após instauração do inquérito civil, a chefia da unidade estadual do IBGE promoveu levantamento de campo e análise comparativa entre os dados obtidos em 2000 e 2007, que apontou significativo decréscimo populacional em 2007. A análise aponta que, em muitos municípios, o decréscimo foi provocado por imprecisões nas divisas municipais e por movimentos migratórios, no entanto, em algumas cidades comprovou-se a prática de ações delituosas por servidores do IBGE.


Na dúvida, desconfie sempre dos números. Até dos números de instituições muito profissionais, como o IBGE. Por mais correta que seja a instituição, sempre pode haver maçãs podres lá dentro.