Tenho ouvido vários podcasts nos últimos dois anos e pouco.
O principal motivo pelo qual eles me fascinam é simples: foi por meio deles que me caiu a ficha de como REALMENTE aquela distinção que se fazia quando entrei na faculdade, entre profissionais "de impresso", "de rádio" e "de TV", não faz mais muito sentido na internet. Claro que há aptidões e aptidões - mas áudio, vídeo, texto e muito mais convivem bem entre si na rede.
Os primeiros podcasts que eu descobri foram os do
New York Times e do
Guardian, meus jornais favoritos no mundo.
O jeito mais fácil de fazer um podcast de jornal é botar o autor de uma coluna para lê-la. Ou um jornalista de boa voz para ler as manchetes do dia. Mas eu acho isso algo bem fraco - em parte porque leio mais rápido do que ouço, em parte porque texto escrito não tem a naturalidade do texto falado.
Os podcasts podem servir para agregar à informação já publicada. É uma camada a mais de informação para quem gosta.
No Times, gosto muito do "World View", uma conversa com os correspondentes do jornal, e o "NYT Tech Talk", sobre tecnologia. No Guardian, gosto de alguns especiais.
Se quiser me ver pirar, porém, é com os podcasts da BBC. Mas eu sei que é covardia, porque a emissora britânica tem mais de sete décadas de experiência como a melhor rádio do mundo. De qualquer forma, é sempre uma bênção poder abdicar dos palpiteiros do rádio local para ouvir programas como
"More or Less" (sobre números) e
"Thinking Allowed" (conversas com sociólogos e outros pesquisadores de ciências humanas sobre temas sempre interessantes), além de entrevistas e documentários de primeira linha.
No Brasil, ouço muito poucos podcasts. A
Folha faz alguns, inclusive sobre horóscopo pra quem gosta (não é minha praia). Ouço o da Eliane Cantanhêde. A rádio
CBN permite baixar alguns programas e colunas. Mas ainda não pegou.
O legal dos podcasts é que as ferramentas estão à mão de todos.
Meu Mano Velho Eduardo Sales Filho edita o
Papo de Gordo toda semana, batendo papo com amigos de peso. Ele usa o Skype pra juntar o pessoal e o Audacity para editar. O amigo Vitor Benvindo, lá no Rio de Janeiro, faz um programa sobre rock antigo chamado
Mofodeu, que pode ser baixado como podcast.
Já o meu mestre Cazé Peçanha, da MTV, criou um site para qualquer um fazer minipodcasts até pelo telefone, o
Gengibre. Eu tenho um
perfil lá onde posto algumas provocações que todos podem responder em texto ou áudio. Anteriormente, também usando o Audacity, fiz alguns podcasts sobre o Deep Purple (sim, eles são minhas cobaias mesmo).
As possibilidades são várias. Você pode fazer podcasts com trechos das entrevistas que faz, pra botar no online de onde você trabalha, por exemplo.
Se você pretende experimentar com podcasts, porém, procure pensar muito bem na edição antes de fazer. Isso inclui pensar bem o texto, ou selecionar muito bem os trechos de fala, além de incluir música e outros sons se possível.
A maior parte dos podcasts amadores bate uma hora de duração. Isso me frustra, porque eu dificilmente tenho uma hora para ouvir um áudio sobre um assunto só. Por isso não tenho paciência de ouvir rádio. Isso pra não falar do "peso" em megabytes dos arquivos.
A maior parte dos podcasts da BBC tem menos de meia hora. Não há assunto que eles não consigam aprofundar nesse tempo. Acho que essa é uma ótima duração. Como eu costumo ouvir podcasts no ônibus ou na rua, dá pra ouvir metade na ida e metade na volta quando saio de casa.
Hoje, há quinhentas coisas brigando pela atenção de cada um: todas as possibilidades da internet, trocentos canais de TV, radio, videogame, jornais, revistas, livros, música a rodo, vídeo de todo jeito... Se você não fisgar a atenção do leitor/ouvinte/espectador, é bastante fácil ele arrumar outra coisa para fazer.
O iTunes, da Apple, é um programa que facilita encontrar e baixar podcasts. Ele tem uma experiência ótima na idéia, mas péssima na execução: a iTunes University. Várias universidades de alto nível (e outras nem tanto) gravam aulas e palestras e permitem que qualquer um baixe.
Genial, né?
Nem tanto.
Já baixei semestres inteiros de aulas sobre assuntos tão fabulosos quanto a história da informação, desde o surgimento da escrita até hoje. (Bom, pra mim é fabuloso.) Mas, além de a gravação estar distante, muito baixa, cheia de ruído, a primeira aula era inteira dedicada a explicar como funcionavam as presenças e a avaliação. No começo de cada aula, o professor conversava sobre aspectos administrativos - com som ruim e tudo. Desisti.
Hoje, botei para ouvir uma palestra da universidade de Cornell sobre a história do vinho nos Estados Unidos. Assunto fascinante - mas eles mantiveram todo o blablablá da oradora, todas as palmas, toda a descrição do currículo do palestrante... e quando o ônibus chegou na minha parada o sujeito tinha acabado de limpar a garganta e agradecer pela presença de todos.
Se você quer fazer um podcast, pense no tempo do seu ouvinte. Ele vale ouro.
E vocês? Ouvem podcasts? Fazem? De que gostam e de que não gostam?