E o eleitor, com a explosão de meios informativos do seu gosto estrito (como no Brasil os pró-Lula se informando com blogs polarizados pra um lado e os antilula se informando com blogs polarizados pra outro lado), não acaba sendo sugado para um gre-nal inútil?
Meu maestro soberano acompanha a política e o jornalismo político americano desde 1962. Ele parece pessimista. E o quadro que ele pinta me parece muito com o que temos no Brasil hoje.
Concordo em boa parte com o que ele diz, ainda que algumas ideias tenham me surpreendido. Como sempre, aliás.
Talvez nós sejamos o problema
Numa era em que há informação demais, um eleitorado seletivo simplesmente reforça ideologias rígidas. Ainda assim, culpamos nossas autoridades eleitas.
Por Philip Meyer
Um congresso disfuncional? Talvez não seja esse o problema. Considere a possibilidade de que o problema seja um eleitorado disfuncional que evita que qualquer coisa aconteça em Washington.
À medida que os jornais perdem anúncios para meios mais novos, todos nos preocupamos com como pagar pelo jornalismo que mantém os cidadãos informados e motivados.
Mas existem outros problemas para que esse jornalismo seja feito. Precisamos de um público que preste atenção e esteja disposto a agir sobre a informação que recebe. Sem ele, o engarrafamento parlamentar que vemos durante o ano inteiro não tem cura.
O que também importa é saber se a informação nos une ou nos divide. Se um liberal se encasula nos escritos de Paul Krugman, no sarcasmo de Keith Olbermann e nos resmungos do Huffington Post, ele ficou mais esclarecido ou simplesmente mais convicto?
Se um conservador passa uma hora com Sean Hannity, absorve a prosa de Charles Krauthammer e acampa no The Weekly Standard, ele tem de fato uma compreensão melhor do plano de saúde proposto por Obama, por exemplo?
Os repórteres de Washington têm parte da culpa. Eles fazem um bom trabalho cobrindo todos os vãos e desvãos das brigas entre a maioria democrata e a minoria republicana. Mas não são tão bons em mostrar o contexto maior e motivar-nos a agir.
Paul Lazarsfeld, o grande sociólogo que morreu em 1976, foi co-autor de um artigo que dava nome a esse problema, há mais de meio século. Informação demais, diz ele, pode levar à "disfunção narcotizante". Em outras palavras, um público eleitor cercado por uma plétora de detalhes e pelo jogo de bastidores vai simplesmente se sentir inútil e apático. Podemos saber muito, e isto nos faz bem, mas deixamos o conhecimento substituir a ação.
O ambiente de mídia que preocupava Lazarsfeld era muito diferente do de hoje. Menos de 1% das casas tinham televisão. Ainda assim, somando o rádio e os meios impressos, havia uma enchente de informação. O cidadão médio, disse Lazarsfeld em 1948, considerava 'suas leituras, audições e pensamentos como a uma performance de vigário. Ele passa a confundir saber a respeito dos problemas do dia com fazer algo a respeito.'
'Sua consciência social permanece imaculadamente limpa. Ele se preocupa. Ele está informado. E ele tem todo tipo de ideia sobre o que devia ser feito.'
'Mas... depois de ter ouvido seus programas favoritos no rádio e lido seu segundo jornal do dia, já passou da hora de ir para a cama.'
Hoje, com muitos outros canais de informação, incluindo TV a cabo, Twitter, Facebook e uma multidão de blogs, estamos cada vez mais soterrados por informações potencialmente narcotizantes. Mas nós não estamos mais inteligentes do que antes. O nível de conhecimento político nos EUA tem se mantido bastante estável ao longo do tempo.
Entretanto, desde o tempo de Lazarsfeld, e especialmente desde cerca de 1990, quando Tim Berners-Lee decidiu chamar a coisa que inventou de World Wide Web, temos consumido um tipo diferente de conteúdo de mídia. Ele é mais especializado. Presta-se menos atenção a áreas de interesse comum, onde pessoas com diferentes pontos de vista podem tentar compreender umas às outras. Essa falta de um ponto comum informativo torna o governo representativo bem mais difícil. Quando não há interesse em saber e compreender as ideias dos outros, não pode haver deliberação. Recaímos num método de votação simples, de aprovar ou reprovar. Quando as coisas saem mal, simplesmente expulsamos os pulhas.
Os Democratas venceram em 2008 porque a economia estava azedando. Os Republicanos notaram, e então sua mais alta prioridade é que o presidente Obama falhe para que os Democratas sejam os pulhas de 2012. Eles são bastante abertos a esse respeito. Onde chegaremos assim?
Caso funcione, o que pode impedir que uma minoria Democrata em 2013 mine o governo da presidente Sarah Palin com mais engarrafamento? Se levar um governo a falhar é o caminho da vitória, estamos naquilo que os engenheiros de software chamam de 'loop': damos voltas e mais voltas e não conseguimos sair disso.
Não culpe o Congresso. Se um eleitorado narcotizado não se envolve, o inimigo somos nós.


No final do século 15, quando Colombo descobria a América, noutras paragens Gutenberg também inventava a prensa de tipos móveis - que foi o que possibilitaria o jornalismo impresso. Adivinha só: a prensa de tipos móveis também foi criticada. No opúsculo "Elogio dos Escribas", o abade Johannes Trithemius sentenciava: "livros impressos nunca serão o equivalente a códices manuscritos... pelo simples motivo de que copiar à mão envolve mais engenho e arte". Um frade, Fra Filippo, criticava o aspecto comercial dos impressos: eram textos "desesperadoramente incorretos", preparados por ignorantes, que tentavam "tolos apedeutas a assumir os ares de doutores eruditos". Qualquer semelhança com o "sábios imaginários" do Sócrates não é mera coincidência. (Veja mais 

Os cachorros loucos da internet, que adoram ver golpismo contra o Lula em qualquer manchete e dificilmente se dão ao trabalho de ler o texto, fizeram a festa ontem com as diferenças entre as manchetes do Globo e do Valor.
"How to Lie with Statistics"
"Precision Journalism"
"A Mathematician Reads the Newspaper"
"Freakonomics"
"A Lógica do Cisne Negro"
"Ensaios Céticos"